Frases e Pensamentos


Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.

(Chico Xavier)

Reescreva sua vida! Feliz Ano Novo!!!

Desejos


Queria fugir de mim
Não ser mais eu mesma
Desabitar deste corpo
Me despir das carnes
E virar nada

Queria ser um espectro
Uma sombra
Alguma coisa sem forma
Que viajasse nos ventos
Que navegasse nos rios
Como folha solta do galho

Queria me perder de mim

Afundar no silêncio manso
do fundo dos mares
E ficar lá

Eu e o silêncio
E nada mais

(Elís Cândido/dezembro de 2010)

Lágrimas de pedra


Este final de semana eu chorei.
Chorei lágrimas de encantamento e de vergonha.
Chorei lágrimas secas.
Como rios de pedras que corriam dentro de mim.
Ninguém viu.
Mas eu chorei.

Chorei porque tive vergonha.
Tive vergonha de ser quem eu sou.
Vergonha de ser civilizada.
Vergonha de ver o que os meus iguais estão fazendo deste mundo.
Desmatamento. Poluição. Violência. Desrespeito.
Senti pena de mim.
Pena de nós.
Pena do mundo.
E chorei.

Ouvindo num documentário os índios
Pude sentir sua sabedoria.
Sua calma.
Sua total integração e respeito com a natureza.
Com cada bicho.
Cada gota d'água.
Cada árvore.

O índio é o lugar onde vive.
A dor de uma árvore arrancada
É a dor de um membro seu decepado do corpo.
Uma simbiose absoluta e fantástica.
Que nós, os homens brancos, não compreendemos.
Não respeitamos.
E pagamos caro por isso.

Tive vergonha da minha raça.
Que degrada tudo por onde passa.
Como se fôssemos Midas, mas da destruição.
Tudo o que tocamos, destruimos.
E chamamos a esta destruição PROGRESSO.

Queria ser índio!
Ter a alma pura.
Ouvir a natureza.
Beber do rio manso.
Dividir, partilhar.
Festejar cada novo dia.
E morrer em paz.
Sabedora do meu dever cumprido.

Para o novo seguidor

Gosto de festejar cada novo seguidor! A felicidade que sinto cada vez que tenho a sorte de cativar mais um seguidor é a mesma de quando ganho um presente, um agrado. Me aquece a alma. Me faz feliz.
Ter você aqui, Luiz vai ser muito bom. Gosto dos seus comentários, sempre tão delicados e sinceros.
Espero que você visite sempre o chovendoletras e que, de alguma maneira se identifique com o que vai encontrar por aqui.
Saber que tenho mais um leitor é um motivo a mais para continuar escrevendo!

Um abraço sincero.

Elís

Meu Menino Maluquinho

Ziraldo
MENINO MALUQUINHO
Tenho um primo chamado Fernando.
Fernando como alguns presidentes. Fernando como alguns sociólogos. Fernando como alguns poetas. Fernando como nenhum outro...
Pessoa fora de qualquer padrão de comportamento. Diferente de todas as que já conheci. Incompreendida por uns. Amada pela maioria.
Apelidado carinhosamente de Fernando Maluco.
Ziraldo poderia ter se inspirado nele para escrever o seu Menino Maluquinho. Ele não deixaria nada a desejar...
A sua "santa mãe", passou maus bocados tentando defendê-lo e educá-lo. Talvez defendê-lo não seja a melhor expressão, uma vez que o moleque não levava desaforos para casa. Sabia muito bem se defender sozinho.
Era mesmo uma questão de zêlo pela prole.
Fernando fez xixi na cama até sabe Deus quantos anos. Todas as manhãs assistíamos a cena daquelas cobertas, lençóis e colchão sendo carregados para o quintal. Dia após dia...
Fernando roubou frutas dos quintais dos vizinhos mais do que qualquer outro moleque da rua. Houve uma vez em que ele atravessou o Rio Paraíba a nado até uma ilha, a Ilha dos Alpes Cunha, roubando de lá algumas abóboras. Nadou de volta carregando aquilo. Levou tudo para casa e chegando lá levou uma sova, tendo que refazer o caminho e colocá-las no lugar de onde as havia tirado. Se ele colocou mesmo eu não sei. Quem irá saber?
Fernando fazia suas próprias pipas e a cola de farinha de trigo usada nelas. Sumia pelos morros do bairro empinando as tais pipas e só aparecia em casa quando bem entendia. Ou quando a fome apertava...
Fernando sabia tudo sobre a vida de todos, o que as vezes gerava alguns problemas...
Fernando não gostava de escolas. Fernando não gostava de horários estabelecidos. Fernando não gostava de regras.
Ele fazia as suas regras. Acho que a sua regra principal era SER FELIZ!
Fernando cresceu.
É um homem bom. Entende tudo de plantas, de árvores, de flores e de bichos.
Mas é ainda uma criança. Aquela. A mesma. Ruidosa e bagunçeira.
Quando chega em frente a nossa casa, meus filhos logo gritam:
- O meu Dindo chegou!
E a casa faz-se em festa, com este maluco beleza!

Há alguns dias passamos com ele um dos melhores finais de semana que já tive. Passeamos de barco, pescamos, comemos um almoço feito no fogão de lenha, contemplamos a vida, a companhia uns dos outros...
Tivemos a chance de perceber que é preciso muito pouco para sermos felizes. Que nos perdemos procurando a felicidade em objetivos inatingíveis e em bens materiais, quando ela está tão perto, tão fácil de alcançar...
Bastar ter ao seu lado aqueles que você ama. E se dedicar a amá-los também.
Basta dar e receber.

Espero que você tenha alguém assim em sua vida. Um Menino Bem Maluquinho!!!
E que possa aprender a viver com ele. A quebrar todas as regras. A lutar pelos seus ideais. A ser um maluco beleza... A ser Fernando, com F, de FELIZ!!!

(Elís Cândido/novembro de 2010)

A Praça

Praça Garcia
Tenho medo daquilo que os meus olhos verão quando se forem os tapumes.
Os tapumes, de certa forma, me protegem daquilo o que me espera lá.
Posso perceber, através de olhares furtivos, que o que me espera não me agrada...


Frios tubos.
Insensíveis blindex.
Luminárias robóticas.
Ares de modernidade.

Onde está aquela praça?
Aquela, que deu pouso ao Bandeirante.
Aquela, em cujas árvores descansou.
Aquela, que levava o seu nome.

Onde está o velho repuxo...
Que meus filhos olharam encantados
Com olhos de quem vê maravilhas!
Aquele velho repuxo, refresco e alívio
das andorinhas barulhentas no verão.
Estará lá?

Lembro bem do pequeno parquinho,
onde meus cabelos de menina
balançaram sob o vento,
nas tardes tranquilas,
depois da missa de domingo.

Naqueles bancos,
naquelas árvores,
no pequenino jardim,
ficaram segredos da minha juventude.

Onde estarão os meus segredos,
se lá não mais estiverem os bancos,
as árvores,
o jardim...
Para onde irão?

Tenho medo do que me espera
nesta praça, que já não é a minha.
Que já não traz história.
Que já não tem calor.

Uma praça que jaz.

(Elís Cândido/novembro de 2010)

Ponderações

Imagem de Daniela Conolly
Tenho uma tendência estranha de rejeitar tudo o que é modismo, tudo o que me parece meio imposto ou forçado. Não sigo tendências.
Confesso que esta minha mania as vezes me leva a cometer erros, a formular conceitos que não são verdadeiros, ou justos.
Na tentativa de não engolir o que me é imposto, fecho meus olhos para algumas coisas boas.
Foi assim com Vanessa da Matta.
Enquanto a mídia massacrava nossos ouvidos com a repetição sistemática dos seus maiores sucessos, eu teimava em não gostar do que ouvia.
Enquanto todos os programas de TV exibiam a cantora e falavam do seu notório talento, eu a classificava como "caricata". Via excessos em tudo o que ela fazia. Sua voz era chata. Sua presença de palco era exagerada...
Na verdade eu não me permitia ouvi-la verdadeiramente. O som entrava pelos meus ouvidos, mas não alcançava meu espírito.
E músicas devem ser escutadas com os ouvidos da alma.
Hoje, devo admitir meu erro e assumir que eu ADORO a Vanessa da Matta!
Sua música é pura vibração, talento, explosão de ritmos e de palavras.
A garota consegue passear entre ritmos como o reagge, o afro, a MPB pura, o samba, sem ser cansativa e sem perder a sua identidade musical.
Sua composição parece ter vida própria, ter brotado de dentro dela.
Ver Vanessa da Matta cantando, poder conhecer seu lado intérprete é como saborear uma aparição, uma divindade encarnada.
Ela se deixa dominar pelo ritmo, pela letra, pelo sentimento que a música invoca. Ela se transforma. Cresce. Fica mais bonita. Resplandece.
É inegável seu talento.
É impossível não gostar do seu trabalho.

Tenho pena de mim mesma, pelo tempo que perdi me privando de uma coisa assim tão boa.

(Elís Cândido/novembro de 2010)

Oração Particular


Senhor, me dê paciência!
Em todos os pedidos que eu Te faço,
Em todas as minhas orações,
Quando acordo e Te agradeço,
Quando me deito e Te entrego a minha alma,
Acrescenta, Senhor, um pedido de paciência.

Paciência para seguir em frente, mesmo com tantas dificuldades.
Paciência para educar meus filhos, tão arredios.
Paciência para tolerar as pessoas mesquinhas.
Paciência para não pisotear os mais fracos.
Paciência para a arrogância dos mais fortes.
Paciência para desempenhar minhas tarefas, tão banais, mas obrigatórias.
Paciência para suportar chefias sem preparo e sem noção.
Paciência para as conversas sem sentido algum.
Paciência para a incompreensão humana.
Para o descaso.
Para o desmando.
Para os que não se comprometem.
Paciência para esperar por dias melhores.
Por pessoas melhores
Por um mundo melhor.
Paciência para tolerar os meus erros.
Os meus defeitos.
A minha falta de paciência...

Ouve o pedido íntimo de um filho Teu.
Me dê paciência,
Meu Deus, paciência!

Paciência para seguir neste mundo, por motivos que só o Senhor conhece.

Amém.

Elís Cândido/novembro de 2010)

Ao amor antigo



O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

Amizades sinceras


"Amizade sincera, é um santo remédio, um abrigo seguro..."
Esta frase é um trecho de uma música do Gonzaguinha, que participou de um Festival da Canção há muitos anos atrás, quando eu era ainda uma menina. Nunca mais me esqueci da letra. Até hoje, passados mais de trinta nos, ainda sei a canção de cor.
As amizades sinceras são exatamente assim. São um santo remédio para as horas de tristeza, de solidão, para as dificulades da vida. São um abrigo seguro, um porto, um pouso, para as vezes que nos sentimos perdidos, sem rumo. Uma amizade sincera é um tesouro que recebemos da vida.
Não poderia acreditar que existam pessoas que passam pela vida sem ter construido uma amizade. Sem ter experimentado o sabor e o prazer do que é ter uma amizade verdadeira.
Hoje, com os meus quase 40 anos, posso dizer com muito gosto que pude conquistar, ao longo dos caminhos da minha vida, algumas doces e verdadeiras amizades. Pessoas que eu amo, que me conhecem e me aceitam pela pessoa que eu sou. Não preciso fingir ou me disfarçar para estes amigos. Eles sabem dos meus erros, acertos, das minhas alegrias e dificuldades.
Eles sabem quem eu sou.
Não importa o tempo que passar. Não importa a distância entre nós. Estes amigos vão estar sempre guardados no meu coração e nas minhas lembranças, assim como a letra da música, que eu nunca esqueci. Serão sempre um doce lembrança.

Para vocês, Dudu, Gorete, Seu Naldo e Edinho, fica meu abraço forte e sincero e o muito obrigada por tudo o que sempre tive ao lado de vocês.
Estou muito feliz por ter um seguidor tão querido...


Elís Cândido/novembro de 2010)

Mães também erram...


Houve um tempo em que eu tinha a romântica ilusão de que mães são pessoas melhores, perfeitas, de que a maternidade gera em nós uma sabedoria infinita...
Mas vejo hoje que a realidade é bem diferente! A maternidade gera conflitos, dificuldades, nos leva a erros e a acertos. Mães não são perfeitas. Mães também erram!
O exercício pleno da maternidade é construido a cada dia, em cada crise, cada dúvida... É um aprendizado.
Mães e filhos constróem juntos um mundo onde a interdependência entre eles leva ao amadurecimento dos dois e ao fortalecimento da relação familiar.
Famílias que não dialogam, que não dividem suas dúvidas, seus conflitos, onde os pais sentem-se soberanos e absolutos, são famílias fadadas ao fracasso.
É preciso dialogar sempre!
Todas as coisas que não são ditas em casa são aprendidas na rua. As crianças precisam de informações, precisam de dados que lhes forneçam condições de tirar suas próprias conclusões sobre o assunto. E cabe a nós, os pais, informar.
Acredito que não deva haver limites, assuntos proibidos, palavras certas ou erradas, quando se tratar da educação dos nossos filhos. O que deve existir sempre é a VERDADE. Porque as verdades não geram dúvidas. Não são questionadas. Não se contradizem. São apenas verdades.
Devemos falar a verdade até mesmo quando não sabemos o que falar.
"Eu não sei! Vamos ter que descobrir juntos!"
Quero dividir com os meus filhos todas as minhas verdades. Todas as minhas dúvidas. Todas as minhas esperanças, medos, dores e maluquices.
Quero viver a minha vida junto com eles. Para eles. Por eles.
Quero errar e acertar.
Não quero ser a melhor amiga. Nem a tirana. Ou a omissa.
Quero ser apenas mãe...

(Elís Cândido/outubro de 2010)

Visceral


Te amo tanto
Tanto que chega a doer
A mais leve idéia de te perder
Me assombra
Me assusta
E desespera

Te amo tanto
Que nada mais me importa
Nada mais interessa
Não preciso ir
Ou vir
Já não tenho pressa

Sei de cor o teu gosto
E o contorno do teu corpo
Adivinho o teu cheiro
E os teus pensamentos
São meus

Te amo tanto
Que te amar me basta
Alimenta
Acalenta
Me dá paz

Te amo tanto
Que por vezes não entendo
Como posso amar assim
Amando mais a você
Do que consigo amar a mim

(Elis Cândido/outubro de 2010)

A musa








































Porque você se pinta,
menina linda?
Entretida em vaidades,
porque teima em esconder a sua idade
e fingir ser o que não é?


Porque você se pinta,
bela menina?
Ao seu lado sento e espero,
observo o seu esmero,
em brincar de ser mulher.


Para que você se esconde,
entre lápis e pincéis,
entre brincos e anéis,
desperdiçando o seu melhor.


Para que você se pinta,
minha boneca menina,
que não quis ser bailarina,
preferindo a molecada.


Minha pequena sapeca,
valente feito um menino
nariz empinado apontando
seu caminhar, seu destino.


Pinta seu rosto e sorri,
minha princesa querida,
musa tão bela e perfeita,
no amor de Deus esculpida.

(Elís Cândido/outubro de 2010)

Para onde as almas voam...



Para onde as almas voam?
Para onde vamos quando não estamos mais em nós?
Existe vida além desta que conhecemos?
Será a morte final ou recomeço?

Tantas são as perguntas. Enormes são os medos. Ritos e costumes se construiram e se perderam ao redor dela, a morte.
Diferentes são as maneiras de enfrentá-la, de vivenciá-la, de superá-la. Mas o temor é uma constante.
Talvez tenhamos medo da morte exatamente pela certeza que temos de que um dia a teremos que encarar. Desde o dia em que nascemos, esta certeza nos acompanha.
As religiões tentam dar o alento, o entendimento, o esteio. Cada uma a sua maneira, buscam explicar aquilo que é inexplicável. A relação vida e morte, matéria e espírito, início e fim.

Lendo e relendo sobre o tema, as teorias e os estudos, decidi ficar com a idéia Budista de morte, que , na minha opinião, é a mais simples, bonita e próxima de uma verdade científica.

Para os Budistas, quando morremos nossa parte física, nossa matéria, não morre, não acaba. Nos transformamos em partes de outras matérias, passamos a compor o universo através das partículas que se desagregam e se incorporam nas árvoes, nas plantas, no ar, em tudo o que tem vida. Assim, não morremos. Estaremos sempre vivos.
Também para eles, nossas palavras e ações transformam-se nas energias nelas contidas e espalham-se pelo cosmo. Por isso é tão importtante ter boas palavras, palavras de amor e paz. Por isso precisamos ter boas ações... Tudo o que fizermos e o que dissermos irá se transformar em energia e ficará vivo para sempre!

Gosto de pensar assim. É mais reconfortante acreditar que quando nossa matéria se for, ainda estaremos aqui. Ainda faremos parte do mundo.


Para mim não há mais mistérios...
As almas voam para jardins distantes.
Viram árvores e flores.
Viram estrelas, viram LUZ!

E não é isto o que sempre disseram?

(Elís Cândido/setembro de 2010)

Pelo direito de falar


Odeio as pessoas que se calam. Se omitem.
Talvez eu deva dizer que odiar seja demasiado exagero, mas, definitivamente, eu as desprezo.
Sei que a minha característica mais marcante é minha língua afiada, minha mania de falar pelos cotovelos, minha incansável tagarelice... Sei também que nem todas as pessoas são ou deveriam ser assim.
Muitas são mais tímidas, mais retraídas, mas todas devem ter opinião, vontade própria, princípios... Ou não?!
Não consigo compreender pessoas que se calam, que consentem com atitudes erradas, com desmandos e desvairios sem sequer questionar.
Este estilo "vaca de presépio" me irrita!
Me irrita perceber que cada vez mais as pessoas escolhem ficar caladas, omissas, a tomar uma postura coerente com seus pensamentos e ideais. Escolhem o "lugar seguro"...
Esta mania de ficar bem com tudo e com todos está transformando as pessoas em seres sem direção. Ninguém consegue ficar sempre bem com todos, em algum momento vamos ter que discordar, discutir, argumentar...

Quando esta síndrome da vaca de presépio afeta políticos então, meus Deus!! Como é possível governar, gerir, desenvolver uma carreira política quando se tem medo de falar, de enfrentar, de dar a cara a tapa?
A mim, parece sintoma de fraqueza...
Governar é, na maioria das vezes, desagradar, discordar, questionar. Ser justo ou ser bom? Agradar a todos ou fazer o que é certo para a maioria? Ser bom ou ser omisso?
Eu governo a minha casa, a minha família, os meus filhos... Nem sempre consigo agradá-los. Mas sempre tento fazer o que é certo! Não me encolho ou me escondo quando as crises aparecem... Não me calo!
Muitas vezes sou eu a voz que orienta. Outras vezes sou eu quem precisa ser orientada por eles. Mas, se eu me calo, como eles irão saber? Como nós vamos saber?
Escolho sempre falar.
Escolho sempre dizer aquilo que penso e o que sinto.
Escolho me expor a me esconder em falsas posturas.

Não sei economizar palavras!
Mesmo que elas não agradem.
Mesmo que não sejam o esperado.
Escolho sempre o direito de falar.

(Elís Cândido/setembro de 2010)

Vilarejo

Jevange
CASEBRES
"Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
(...)

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos

E essa canção
Tem o verdadeiro amor
Para quando você for"

(MARISA MONTE)

Viagem


"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: "Não há mais o que ver", sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."

(José Saramago)

Sou água


Sou água impura
sem cura,
em busca da transparência.
Sou água escura
sem resplendência.
Mas tenho a vontade de ser
água potável ofertada
aos que têm sede, golada,
sorvida, transfigurada.
Sou a água na parede
Lacrimejante do inverno.
Sou água em vapor no inferno
a tentar fuga sem rumo.
Sou água do fio de prumo
buscando o nível da vida.
Eis-me água estremecida
pela brisa sussurante
que o espelho desalisa.
Sou água que catalisa
A energia semovente.
Sou essa água corrente
em busca do mar sem fim.
Sou chuva de tempestade,
sou garoa da cidade,
sou a gota do rocio,
sou goteira, sou o rio,
rios que tenho em mim.


(Cleto de Assis/Curitiba, publicado em Banco da Poesia)

Intermináveis Tropeços


Seria a vida um eterno CAIR e LEVANTAR, uma repetição de "LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA..."?
Às vezes tenho a sensação que é exatamente assim. Cair, respirar fundo, levantar... Pra cair novamente depois.
E não adianta tentar ludibriar a sabedoria da vida, ficando sentado, sem se levantar, meio que prevenindo um outro tropeço, um outro tombo.
Se você não se levanta, ainda assim a vida te derruba, te dá uma rasteira e te leva mais para o fundo, já que você já estava mesmo na "horizontal da vida".
É preciso se reenguer!
É preciso teimar em seguir em frente. E seguir!
É preciso não viver olhando sempre pelo nosso espelho retrovisor. Temos que olhar adiante. Perseverar.
Talvez esta seja a palavra: PERSEVERANÇA.
Nem sempre aquele que vence na vida é o mais forte, o mais inteligente, o mais bonito. Não! Ás vezes é aquele que persevera!
Acho que perseverança e fé são irmãs. Palavras que caminham juntas.
É difícil acreditar que alguém sem fé possa perseverar. Ou que alguém que persevera não tenha lá algum tipo de fé.
Não queira viver toda a sua vida na horizontal. Erga-se! Verticalize-se! Acredite em você e tenha perseverança!
Você pode cair ou tropeçar hoje, mas certamente vai se reerguer mais forte, com mais sabedoria, com mais vontade de acertar e de viver.
Vai aprender que a vida fica mais leve quando se contabiliza não os tropeços e as quedas, mas cada reerguida, cada decisão de seguir em frente, cada passo caminhado rumo a um futuro melhor.
Então, erga-se, persevere, siga em frente e seja feliz!

(Elís Cândido/setembro de 2010)

Um pouco de Cor e de Beleza...

Tarsila do Amaral
MANACÁ

Envelhecendo...


Envelhecer não é fácil...
Como fazer para me acostumar com este novo rosto que teima em aparecer diante do espelho? E estas novas formas, este novo corpo?
Tenho que conviver com alguém que não sou eu. Ou sou?!
Assisti um filme maravilhoso, chamado Tomates Verdes Fritos e uma das personagens tem uma fala que me atingiu em cheio. Ela dizia algo mais ou menos assim: Sou jovem demais para ser velha e velha demais para ser jovem...
É assim que me sinto hoje!
Como posso ser velha, uma coroa, tia, como dizem os amigos dos meus filhos, se ainda me sinto tão nova?
Ao mesmo tempo, já não posso mais ter certos comportamentos porque não sou mais uma garotinha de 19 anos. Até minha maneira de vestir e de falar já não pode mais ser a mesma...
Acho que estou vivendo uma segunda adolescência! É tão difícil me enquadrar nesta nova fase da vida. Eu não quero ser velha! Não me sinto velha! Mas também já não posso mais ser quem eu era antes. Por que eu ERA, não sou mais.
A sociedade é cruel conosco. Ela cobra, rotula, exige...
Quero poder envelhecer a meu tempo. Quero poder ser quem eu sou. Quem eu sinto que sou.
Não vou mudar a minha vida apenas para me adequar aos padrões.
Vou achar um meio termo.
E ser uma mulher madura e feliz!

Elís Cândido (setembro de 2010)

O tempo e as jabuticabas


“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela
menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a
essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta
com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não
foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados,
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse
amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.”

O essencial faz a vida valer a pena.

Rubem Alves

Ódio


Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!
Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não... não vale a pena...

Florbela Espanca

Vazio

Estranhos são estes dias. Dias nublados. Olho para dentro de mim e não vejo nada. Sou apenas uma página em branco. Não há cor. Nem movimento. Nada. Apenas o vazio...
Quando vou voltar a habitar em mim?

(Elís Cândido/20 de agosto de 2010)

Primavera Escrita


Tudo o que aqui escrevo
começa como Palavra
que me surge em pensamento
e toma conta de tudo
monopoliza o momento

Ela então se multiplica
se divide,subtrai
vira outras
vira frases
ganha alma e sentido

Como planta vai brotando
cria ramos e raiz
vira coisa
vira verso
florindo de dentro de mim.

(Elís Cândido/agosto de 2010)

Amo-te


O amor que eu tenho em você
Acho que ninguém mais tem
O amor que faço com você
Não faço com mais ninguém

Amo seu peito
Seu pelo
Seu cheiro
Amo seu corpo quente
Roçando em mim

Amo o toque dos seus dedos
e até os calos das suas maõs

Seus cabelos crespos
Grisalhos
Este sorriso morno
E o olhar manso

Conheço seus pensamentos
E o seu jeito de andar

Você é meu porto seguro
Minha loucura
E tentação
Minha metade
Meu oposto

Não há lugar algum
Onde mais eu queira estar
Que aqui amando você
E deixando você me amar.

(Elís Cândido/12 de agosto de 2010)

A vida no morro

Tarsila do Amaral
MORRO DA FAVELA
Morar no morro é bom. O povo daqui é gente humilde, trabalhadora, gente boa. É bom poder ouvir o vento brigando com as folhas das palmeiras, os gritos das maritacas em revoada, o apito triste do trem e a farra da molecada nos dias de pipas.
Nas tardes quentes de verão, as comadres e compadres sentam-se nos portões até o anoitecer, falando da vida alheia, falando da própria vida, falando das novelas, dos filhos, dos maridos, do futebol... Assuntos não faltam numa rodinha lá do morro. Não há nada que escape das matraqueiras de plantão. Quer saber das novidades? Apareça numa rodinha lá do morro...
No outono tem sempre frutas para alegrar a meninada. Tem goiaba, tem abacate, acerola, tem banana, jabuticaba, tem manga e cana também. Umas frutas se ganha, outras se rouba no pé. Coisas boas do morro!
A boa gente lá do morro não se fantasia. Cada um é aquilo que é, sem tirar nem por. Não precisamos fingir, todos sabem quem somos, todos se conhecem, todos compartilham das mesmas realidades. É claro que todo morro tem sempre uma "Conceição", como aquela da música do Calby Peixoto. Uma pessoa que vive travestida de madame, que não cumprimenta ninguém, que finge ser o que não é, mas não engana ninguém. Não aqui no morro... Mas este tipo é caso raro e serve para assunto nas rodinhas de portão.
Festa no morro é churrasco, com cerveja e (pasmem) vinho tinto bem gelado! Animação é o que não falta! E nem foguetes. No morro a gente solta fogos no Natal, na vitótia do time do coração, no Carnaval, no Ano Novo, no dia do Santo Padroeiro... Tudo é motivo para foguetório!
Cachorro aqui é comum. Toda casa tem um. Algumas casa tem dois ou três. Na minha casa temos cinco. Acho que a gente tem amor de sobra...
As travessas e bandejas passeiam de casa em casa. Tudo que a gente faz, divide. Vou levar um pedacinho para a Dona Cecília... e a vasilha nunca volta para casa vazia. Coisas do morro.
E estas coisas fazem do morro um lugar bom de se viver. Um lugar onde o tempo passa devagar, onde a vida é morna e colorida como as tardes de verão.
Morar no morro é bom!

(Elís Cândido/ 11 de agosto de 2010)

Um pouco de cor e de beleza...

Tarsila do Amaral
O PESCADOR

Para a nova seguidora

Que bom ter você aqui também! Espero que goste do que vai encontrar por aqui. São pensamentos, sentimentos, imagens e palavras que fazem parte da minha vida. Algumas palavras são minhas, outras eu gosto de ler e resolvi dividir este prazer, postando no blog... É bom poder partilhar tudo isso com você. Seja bem vinda!

Uma questão de escolha


Nossa vida é feita de escolhas. Temos que escolher o tempo todo, e cada escolha nos leva a um caminho diferente. Nunca vamos saber como seria nossa vida se tivéssemos escolhido caminhar por outros rumos, que não estes que trilhamos agora.
Tudo é sempre uma questão de escolha.
Algumas vezes nós fazemos nossas escolhas de maneira inconsciente. Nos deixamos seguir, levar, fingimos não estar escolhendo, tentamos não nos responsabilizar. Mas a verdade é que estamos sempre escolhendo.
Escolhemos o que comer, o que vestir, o que dizer, o que fazer. Escolhemos isto ou aquilo.
Escolhemos as cegas. Não há como saber onde cada escolha vai dar. Se vai dar certo ou se vai dar errado. Algumas vezes, uma vozinha dentro da gente avisa: Não faça isto! Não vá por aí! Uns chamam isto de sexto sentido, outros de intuição, outros de Divino Espírito Santo... A verdade é que, na maioria das vezes em que não ouvimos o que diz esta santa vozinha, nós nos damos mal. Aí vem aquela velha frase: Eu devia ter ouvido a minha intuição...
Tarde demais. Escolha feita, caminho sem volta!
Existem escolhas insanas, quase suicidas. Aquelas que a gente sabe que não vão dar certo. Casar com um fanfarrão, fazer coisas ilegais, dirigir embriagado... O final todos já sabem... Todos, menos o tolo que está fazendo as escolhas.
Temos que tentar fazer o que é certo. Escolher o que é melhor. Temos que escolher.
Eu escolho ser feliz. Escolho ter amigos. Escolho ser fiel aos meus pensamentos. Escolho fazer o bem. Escolho ser quem eu sou. Escolho fazer sempre o melhor, da melhor maneira... Acho que, se nestas pequenas coisas eu fizer as escolhas certas, a vida vai me guiar para caminhos onde jamais imaginei que pudesse chegar.
Faça suas escolhas! Não deixe que alguém faça isto por você. Pense, decida, lute, acredite nos seus ideais, naquilo que é importante para você! Seja fiel aos seus princípios, as suas crenças, aos seus amigos e amores... Escolha o que te faz feliz. Escolha VOCÊ!

(Elís Cândido/agosto de 2010)

O Dicionário do Caio


Meu filho Caio é um cara engraçado. Vive num mundo só dele. Vive em paz com tudo e com todos. É um moleque que não sobe em árvores, não solta pipas, não rouba frutas do quintal do vizinho... É um cidadão de seu próprio mundo.
Garoto esperto, que sabe de futebol,escreve histórias em quadrinhos, entende de política (do seu jeito) e tem sempre uma "abobrinha" na ponta da língua. Aliás, falar é com ele mesmo... Fala da hora que acorda até a hora de dormir. Tem vezes que fala dormindo! Não tem tecla para desligar nem botão de volume. Ele as vezes me enlouquece!
Das asneiras que ele fala, me lembro de algumas que são dignas de uma postagem. Sendo assim, vão aí umas expressões que poderíam constar de um novo dicionário: o Dicionário do Caio.
PANCAINHA: campainha
FURACO: buraco, furo
PICOQUINHA: pipoquinha
DISCUTIÇÃO: briga, discussão, falatório
ANTECESTRAIS: ancestrais, parentes
CICLO VIRTUOSO: ciclo vicioso, uma coisa que não tem fim
AQUELA MULHER ETERNA: Margaret Thatcher, primeira ministra britânica
O GOVERNADOR QUE ERA O RAMBO: Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia
GULHA: agulha, ele acha que o A não faz parte da palavra, é artigo
AQUELE NEGÓCIO QUE PARECE UM BAMBU, MAS É DE CHUPAR: cana
AQUELA FRUTA QUADRADA, AMARELA QUE A MINHA MÂE FAZ E EU NÃO GOSTO: angu

Deus me dê saúde e paciência para aturar este moleque!

(Elís Cândido/ 06 de agosto de 2010)

As manhãs e as maritacas


Gosto muito das manhãs.
De todas as horas do dia, o amanhecer é a mais bela.
O sol, as nuvens, as janelas se abrindo...
Os ruídos de uma cidade que acorda...
E as maritacas!

Nem bem o sol aparece lá no céu,
já começa a gritaria.
Meus Deus e como gritam!
Elas parecem loucas, desvairadas.
As vuvuzelas lá da África perderiam feio para elas!
As maritacas!

Nestes dias que anunciam a primavera
o alvoroço é geral!
Voam e gritam.
Gritam e voam.
As benditas maritacas!

O pequeno casal que há anos ninha em nosso telhado retornou hoje.
Da janela do meu quarto pude vê-los.
Fiquei feliz em revê-los!
Outra ninhada.
Outro filhote.
Outra maritaca.

Gosto de ouvir os seus gritos loucos.
Gosto de vê-las voar.
E revoar pelo céu.
Gosto deste tumulto verde.

Que venham as maritacas!

(Elís Cândido/05 de agosto de 2010)

Sobre pedras e pesadelos

Ouvi no jornal que lá para os lados das Minas Gerais, num lugar onde do céu só caíam grossas gotas de chuva, agora estão caindo pedras. Meteoritos.
Dizem que são pedaços de Marte.
Minha mãe não acredita. Ela diz que é tudo balela. Que só acredita vendo. Já eu, não sei se quero ver... Melhor saber pela TV. É mais seguro.
Me lembrei do desenho do galinho "Tchicken Little": O céu está caindo! O céu está caindo! Meu filho teve um pesadelo e correu para minha cama. Com certeza a história da pedras que caem do céu ficou gravada dentro dele.
Seu coração de criança teve medo e eu é que pago o pato! Outra noite sem dormir...
De qualquer modo, se o mundo estiver mesmo acabando e o céu estiver caindo, melhor mesmo é ficar assim, na minha cama, com meu moleque de um lado, minha filha dormindo e minha mãe lá no quarto dela, rezando pra que seja mentira...

(Elís Cândido/ 04 de agosto de 2010)

Insana


queria voltar a ser o que eu era antes
antes de ser qualquer coisa
quando era ainda um nada
quando eu era apenas EU

queria não saber tudo o que sei
não ter aprendido o que aprendi
não ter conhecido o mundo
queria voltar a ser EU

na verdade
o que aprendi foi um erro
o que conheci não me agrada
o que sei não tem valor

de que valem tantos anos de escola?
uma vida inteira de "aprendizados"?
se estes valores não são os meus,
se o que sei não me interessa

queria voltar ao nada
resgatar minha inocência
voltar ao útero,
a mater
e renascer!

queria
e não posso
não tem jeito
vou ter que me aceitar

posso me reinventar
fingir que sou o que não sou
que penso o que não penso
que gosto do que não gosto

mas aí
não vou ser EU
vou me perder de mim
do mesmo jeito...

melhor deixar como está

(Elís Cândido/ 05 de agosto de 2010)

FLIP Festa Literária Internacional de Paraty


Começa hoje a Festa Literária Internacional de Paraty. É uma ótima oportunidade para respirar ar puro, natureza e cultura!
A abertura acontecerá as 19 horas com a presença do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e as 21 horas haverá show com Edu Lobo.
Pena eu estar tão longe...

Novo Tempo


passado o vendaval,
será outra paisagem.

varrida a sequidão das folhas mortas,
por tanto tempo fazendo as vezes de chão,
escondendo a boa terra, fértil e rica.

quebrados retirados os galhos mortos,
feios porque mortos,
tudo brotará.

será a grande estação.
a melhor delas,
brotação de terra madura,
generosa e fecunda
em seiva, cores, cheiros.

seu caminho.
meu caminho.
seu chão e o meu.
então, sem nenhuma dor,
terá passado o vendaval.

(Lília Sertã Junqueira, do livro Instantâneos)

Os sapatos de Van Gogh

Van Gogh
Em que estaria pensando Van Gogh quando pintou esta tela?
Quantas andanças caberiam neste simples par de sapatos... quanta história...
De tanto admirar a imagem, chego a encontrar características humanas neste objeto. Objeto. Coisa. Matéria sem vida. Mas chego a ver nestes sapatos uma humildade, um cansaço, uma relação de compreensão, de cumplicidade...
Que significados teriam estes sapatos para ele?
Pelos sapatos pode-se dizer muito do dono, se é conservador ou arrojado, se cuidadoso ou desleixado, se pensa em conforto ou aparência...
Que dizer então do dono destes sapatos, tão surrados, tão assimetricamente largados.
De quem seriam os sapatos? Talvez não dele, mas de alguém que, este sim tivesse suma importância. Talvez ao retratar o sapato ele buscasse apenas publicizar algo desta pessoa... Talvez, talvez.
Talvez estivesse cansado de rostos. De sorrisos. De musas. De pessoas.
Quem sabe?

Recomeça...



Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

(Miguel Torga)

O visitante


Hoje acordei e ao abrir meus olhos deparei-me com ele! Não me causou espanto ou mesmo me assustou. Somos velhos conhecidos. Sua presença me acompanha a longas datas.
Já não me incomoda mais sua face carrancuda ou seus olhos chispados de tensão e de ironia. Me incomoda o peso de ter que carregá-lo em minhas costas... Arrastá-lo para todos os lados como um preso arrasta suas correntes de ferro... Que fardo!
Escorrego da cama e sentada penso que vai ser um longo dia.
Sigo em frente no piloto automático, já que na verdade, não sou eu quem me conduz. Hoje quem tem as rédeas, a direção, é ele!
Todos os meus atos, minhas falas e até meus pensamentos hoje não são verdadeiramente meus. Ele sempre age por mim. Fala por mim. Pensa por mim.
Sou marionete, sou fantoche em suas mãos.
Houve tempos em que tentei me libertar. Quando percebia sua presença, fugia. Cantava. Assobiava. Trabalhava feito louca. Hoje não tento mais resistir... Se ele quer vir, então, que venha!
Afinal, como posso me exorcizar de mim mesma? Daquilo que também sou eu?
Melhor aceitar e conviver com ele.
Nestes dias em que eu sou ele (ou ele sou eu?) é melhor manter distância. Tentar me ajudar vai ser em vão...
Este visitante incômodo age sempre desta maneira: chega sem avisar, fica o tempo que bem quer e vai embora sem se despedir.
Tomara mesmo ele ir!
Ô mau humor que não me deixa!!

(Elís Cândido, julho de 2010)

Duas existências




Numa casa em que faltava
A luz o ar e pão
Entrara ela na vida
Tendo ao seu lado um caixão;

Pois no dia em que nascera
Morrera seu pai também!
Vira assim a luz do mundo
Sozinha com sua mãe!

Num rico, claro aposento
Entre veludos e rendas
Onde as mais pequenas fendas
Para não entrar o frio,
Embora fosse no estio
Se tinham calafetado,
Onde tudo era alegria,
Onde tudo era cuidado
Tinha no mundo ele entrado
Em um esplendido dia!

Crescera só rodeada
Pela dor, pela pobreza,
Pela fome, pelo frio,
Pela miséria e tristeza

Crescera ele ao contrário
Entre risos d'alegria
Entre abundância, opulência
E tendo tudo o que queria.

A mãe dele mui doente
Não podia trabalhar:
A linda e pobre Maria
Tinha pois que a sustentar
Para isso noute e dia
Estava sempre a costurar!

Ele não, não trabalhava,
Alegre vida levava,
De cousa alguma cuidava,
Excepto dos seus prazeres.
Gastava dinheiro a rodos
Mas era célebre entre todos
Pelos seus trens e mulheres!

Maria como uma deusa
Era bela era formosa.
Olhos lindos, graciosa
A boca, e as mãos de fada.
Alta não muito, elegante.
A tez do seu semblante
Mimosa mas descorada.
Tinha mui negro o cabelo
E de tal maneira belo
Que qualquer pessoa ao vê-lo
Ficava extasiada!

Também ele era formoso,
O rosto branco e rosado,
O seu lábio por um buço
Louro e fino assombreado.
Era enfim João um moço
Que devia ser amado.

Por grande fatalidade
Encontrara ele um dia
A linda e casta Maria
Numa rua da cidade.
De ver tão grande beleza
Na miséria, na pobreza
Ficara muito espantado.

De Maria o coração
Palpitara ao ver João!...

.........................................

Poe ela ele foi amado!...
Com grande amor inocente.
Amou-a ele também
Porém... Criminosamente!

........................................

Passou-se o tempo e a pomba
Caiu nas garras do abutre!

.......................................

É bem certo que mui zomba
A previdência no mundo
Com um cinismo profundo
Pois em quanto que Maria
Donzela tão desgraçada
Vendo-se ludibriada
Viver mais tempo não queria
E co'a a vida terminava;
Ele, o infante João
Continuava a viver
Rico, alegre e feliz
Numa vida de prazer!...

(Mário de Sá-Carneiro)

Tua nudez

John Vistaunet


A rosa:
Tua nudez feita graça.
A fonte:
Tua nudez feita água.
A estrela:
Tua nudez feita alma.

(Manuel Bandeira)

Li um dia




Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Digo pra mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?


(Florbela Espanca)

Frases e Pensamentos...

"Viver é inadiável.
Dizer a vida é, muitas vezes, a forma de suportá-la.
Gritar a dor e o prazer, gemer a dúvida e a angústia, sussurrar a ternura, uivar a solidão e o medo...
Dizer é falar com o outro. O grito, o sussurro, o gemido, o uivo, nada são, se não há quem os ouça..."



(Trecho do Prefácio do livro Instantâneos, de Lília Sertã Junqueira)

Sobre palavras e imagens...

Claude Monet
MADAME MONET AND HER
Quem visita este blog ou me conhece um pouquinho, sabe do meu amor pelas PALAVRAS. Aliás, elas foram o motivo maior da criação deste blog. Externar sentimentos, pensamentos, transformá-los em palavras e compartilhá-los. Mas, Santo Agostinho já dizia, em sua vasta sabedoria, que "O mundo é livro. Quem não sai de casa vive apenas uma página". Sendo assim, decidi sair de casa, abandonar minha aldeia e me aventurar por outros lugares, outros caminhos.
Não vou abandonar as palavras. Não! Vou apenas tentar experimentar outras formas de compartilhar a beleza, dividir sensações... Afinal, há coisas tão belas neste mundo que não podem ser traduzidas em palavras, precisam ser vistas, admiradas, sentidas, compreendidas. Em alguns momentos, aqui no blog, vou postar reproduções de pinturas de artistas famosos, belíssimas, dignas de publicidade e admiração. Gosto muito de Arte. Não acho que seja preciso entender de arte para entender a arte. A beleza fala por si. Ela é capaz de romper barreiras, aproximar universos.
Então, não se espante se, entre uma ou outra leitura, você se deparar com uma imagem apenas. Observe-a. Faça sua leitura. Admire sua beleza.
Vai valer a pena, pode acreditar!

(Elís Cândido/julho de 2010)

De quem é a responsabilidade?


É comum caminharmos pelas cidades e nos depararmos com animais errantes, abandonados. Para os que amam os animais, segue-se uma sensação de dó e de impotência, já que não podemos levar todos eles para casa, cuidar e proteger. Para os que não compartilham deste amor, surge o incômodo, o nojo e muitas vezes, a violência.
Mas de quem é a responsabilidade sobre os animais de rua?
O que observamos atualmente é a atuação, ainda tímida, das ONG'S, da união de esforços de algumas pessoas, enfim, do terceiro setor.
Mas e a responsabilidade do poder público? Onde fica? Inexiste?
Entendo que a questão destes animais é sim uma questão de saúde pública. Deveria constar das agendas dos ilustres prefeitos e governadores, já que uma animal de rua pode ser vetor de inúmeras doenças, sem se levar em conta a questão do bem estar do próprio animal.
Investe-se tantos milhões em obras inúteis, que servem apenas para massagear o ego dos senhores políticos. Porque não investir também em campanhas maciças de esterelização e controle da reprodução, abrigos, campanhas de adoção, saúde e bem estar, voltadas para estes animais?
É preciso conscientizar nosso políticos e cobrar deles as atitudes necessárias.
É preciso também que tenhamos consciência da responsabilidade que assumimos ao adquirir um animal de estimação, já que este ficará dependente dos nossos cuidados durante toda a sua vida. E animais vivem muito!
Não podemos nos eximir das nossas responsabilidades, assim como não podemos deixar de cobrar atitudes dos nossos governantes.
Vamos dar voz a quem não pode falar, se defender. Vamos tentar nos unir por um ambiente melhor e mais saudável. Para todos nós.

(Elís Cândido/julho de 2010)

Os Pessimistas




Certa vez, um poderoso rei, para comemorar o aniversário de seu amado filho, resolveu fazer uma grande festa para todos os seus súditos. Entre as muitas atrações do evento, havia um desafio que a todos interessou: era "a escalada ao poste". No alto de um gigantesco mastro havia uma cesta repleta de ouro e de comida. Aquele que conseguisse alcançar o topo daquele poste poderia se deliciar com a comida e pegar para si todo o ouro. Muitos dos que estavam presentes, pretendiam participar daquele desafio. Quando o rei autorizou, foi dado início à prova.

O primeiro a participar foi um rapaz alto e forte. Ele tomou uma distância curtíssima e começou a subir no poste. Não chegara nem à metade, quando, cansado e irritado, desistiu. Enquanto descia, dizia que o poste era alto demais e que não havia nenhuma possibilidade de que alguém alcançasse o prêmio.

Blasfemava baixinho para que seus queixumes não fossem ouvidos pelo rei, mas sugeriu àqueles que se aproximavam dele que não tentassem, a fim de que o rei se visse obrigado a diminuir o tamanho do mastro. Alguns súditos, influenciados pelas palavras do jovem, sentiram-se decepcionados com o rei e foram embora cabisbaixos e choramingando. Outros proferiram contra o rei palavras de desapontamento.

De repente, porém, do meio da multidão surgiu um garotinho muito magro e de aparência franzina. Tomou distância, aproveitando o tumulto criado pelo jovem rapaz que o antecedera, e, correndo como o vento, iniciou sua subida no mastro. Na primeira tentativa não teve êxito. Quando se preparava para tentar novamente, as pessoas ao redor gritavam: "desista! Desista!". Mesmo assim ele persistiu. Parecia mais convicto do que da primeira vez. Afastou-se e, com energia, agarrava-se ao mastro, ganhando altura com muito empenho. Minutos depois, após ter realizado indescritível esforço, o garoto, diante do olhar admirado de todos, atingiu o topo e a cesta repleta de ouro e comida. Alguns o aplaudiram; outros, incrédulos, comentavam a proeza.

O rei, admirado pela determinação do vencedor, imediatamente foi procurar o pai do garoto para buscar uma explicação sobre o ocorrido.
"Meu senhor, como pôde esse menino, tão pequeno e fraco, alcançar um objetivo tão difícil, enquanto todos o instigavam a desistir?" - questionou curioso o soberano.
Sorrindo, com o filho nos braços, o pai esclareceu: "duas coisas motivaram o meu filho a agir da forma como agiu: a primeira é a fome, porque há dias o pobre não come nada. E a segunda é porque ele é surdo, e não ouviu nenhuma das palavras desencorajadoras que lhe foram dirigidas."

->> Muitas são as razões que podem nos motivar a buscar nossos objetivos. Algumas delas são nobres e dignas, outras emergenciais e até mesmo casuais. Em verdade, o mais importante é que tenhamos metas definidas e firme disposição para persistir sempre.
Distinguir as palavras de orientação das palavras de desestímulo nem sempre é tarefa fácil. Usemos, portanto, o bom senso e o discernimento para saber insistir no que realmente vale a pena, sem nos deixar acovardar pelos discursos pessimistas!!!



(Retirado do site: www.velhosabio.com.br)

Lembranças


Conheci um dia uma grande mulher. Digna de se admirar. Uma mente brilhante, pensamento à frente de seu tempo.
Determinação e atitude.
Mulher de poucas crenças (será?). Cética. Como todo intelectual se diz ser.
Afinal, como crer naquilo que não se pode explicar? Como aceitar o que a ciência e a inteligência humana não são capazes de comprovar?
Determinação e atitude.
Uma mulher guiada por instintos.
Aprendi muito com ela. O tempo em que pudemos conviver foi um tempo de aprendizado. Havia todo um universo desconhecido, quase inexistente para mim. Conhecimentos, informações, cultura. Havia muito o que aprender.
Mas ela era dura. Quase inoxidável.
Determinação e atitude.
Tão próxima e tão distante.
Tão certa das suas convicções.
Tão improvável na arte das relações. No contato humano.
Não sei ao certo se ela era quem realmente era. Se era quem eu pensava que era. Se era quem ela achava que era.
Sei que ela foi importante.
Ao menos para mim.


(Elís Cândido/julho de 2010)

Mutação



Quem é você?
Quem é esta pessoa em quem você se transformou? Olho para dentro de você e não te vejo. Não te encontro.
Onde está aquela menina, tão pequena e indefesa? Onde foi tua doçura? O que fez dos teus abraços, que eram meus...
Quem é você?
O que pensa? O que sente? Para quê tanta arrogância? E este ego sem tamanho... De onde veio tudo isto?
Será que estava tudo aqui e eu não via?
Será que você já era assim e eu não sabia?
Sinto que nada do meu mundo te encanta. Meus valores não têm sentido. Meu esforço não te agrada...
Será que eu também fui assim, este ser em mutação? Este alguém que não se entende, este conflito ambulante?
Esta tal adolescência!
Porque você não volta? Não pede colo? Ainda posso te proteger...
Mas, se preferir andar sozinha, escolha bem os caminhos. Lembre-se de quem você é. Daquilo que te ensinei. Não se deixe levar por falsos valores.
Se preferir andar sozinha, pode ir. É o teu caminho. Não posso caminhar por você.
Posso apenas confiar. E aguardar.
Eu te espero.
Espero você crescer. Se livrar deste casulo que te impede de ver quem você realmente é. O que realmente tem valor. Descobrir que a menina tão bonita, de uma alma tão pura, ainda mora em ti. Está apenas perdida. Escondida. Está aí, esperando que você se reencontre com ela.
Eu também espero. Estou aqui.
E vou estar sempre.

(Elís Cândido/julho de 2010)

Frases e Pensamentos...

Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração.
Não me façam ser quem não sou.
Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente.
Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre!



(Clarice Lispector)

A estrela



Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

(Manuel Bandeira)

Bem, hoje




Bem, hoje que estou só e posso ver
Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
Quanto, se o for, serei em vão.

Hoje, vou confessar, quero sentir-me
Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias,
Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas urtigas dos meus dias
A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre, porque o pobre é rico
Em qualquer cousa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico.
Escrevo-o para o lembrar bem.

(Fernando Pessoa)

Derradeira primavera




Põe a mão na minha mão
Só nos resta uma canção
Vamos, volta, o mais é dor
Ouve só uma vez mais
A última vez, a última voz
A voz de um trovador

Fecha os olhos devagar
Vem e chora comigo
O tempo que o amor não nos deu
Toda a infinita espera
O que não foi só teu e meu
Nessa derradeira primavera

(Vinicius de Moraes)

Cansada


Cansada! É assim que eu me sinto hoje. Não é um cansaço físico, é alguma coisa que vem da alma. Estou realmente cansada. Uma apatia enorme tomou conta de mim.
Não quero falar. Não quero sair. Não quero ficar. Apática.
Ligo a Tv e ela não me diz nada. Tudo igual. Aperto as teclas do controle remoto, mas eu é que estou REMOTA. Distante, inacessível.
Acho que hoje não faço parte do mundo. Não compreendo as pessoas ao meu redor. O que é que elas dizem? Que conversa é essa? Quem disse que eu quero ouvir?
Quem são essas pessoas, que falam coisas tão vazias, tão sem sentido. Quantas palavras desnecessárias!
Hoje estou cansada. Queria mesmo o silêncio. O vácuo. Vazio. O nada.

(Elís Cândido/julho de 2010)

Cigano


Sei que não sou sua dona.
Que não te possuo.
Nem tenho esta pretensão.
Ou intensão.

O meu amor não é assim.
Não controlo os teus passos.
Tuas andanças.

Prefiro te deixar livre.
Saber que, se você fica,
é porque assim o quer.
Porque me quer.

Como eu te quero.
E não quero nada mais.
De lugar algum.
Ninguém.

Pelo menos não hoje.
Não agora.
Não ainda.
Hoje eu sou somente sua.

O seu amor me basta.
Me completa.
Me sacia.
Amor sem rédeas.
Cigano.

(Elís Cândido/julho de 2010)

A cadeira vazia


Aquela cadeira vazia,
esquecida no canto da sala,
um dia já teve vida.
Naquela cadeira vazia,
histórias foram contadas,
nas tardes quentes dos verões passados.

No lugar do vazio de hoje,
antes havia alguém.
Um alguém cheio de vida.
Um alguém cheio de luz e de palavras.
Muitas vezes ainda,
um alguém feito de silêncio e dor.

Muitas lágrimas correram daquele rosto cansado.
Muitas noites sem sono,
sentado naquela cadeira antiga.
Aquela cadeira,
hoje vazia.
Sempre amiga.
Sempre à espera.

Sempre.

Falta você.
No seu lugar.
Naquela cadeira
que eu mesma te dei.
Falta você, pai.
Na minha vida.
E naquela cadeira vazia.

(Elís Cândido/julho de 2010)

Eu, eles e um reflexo




Ironia ou não, percebemo-nos mais quando estamos mergulhados em gente. Gente diferente da gente. Gente que não tem os mesmos conceitos, aquele tipo que não oferece nem um debate instigante. Nada. Encontramo-nos. Olha-se para os lados e sente-se um vazio, uma falta de tudo. Nesse momento abre-se espaço para recordar alguém esquecido: nós mesmos.

Isso salva um dia, uma auto-estima, um amor-próprio. E tudo o que pensávamos feio em nós, é visto com outros olhos e admirado. Quanto mais conheço os outros, mais estimo por mim mesma. Sem afetação, com um orgulho que vai crescendo devagar, pouco a pouco.


Uma menina disse-me que não consegue olhar nos olhos de certas pessoas, porque se sente intimidada. E eu, com minha ínfima sabedoria, respondi que com o tempo, vamos criando dignidade o suficiente para se auto-afirmar sem medo.
Estava certa, sim. Já não sou tão ínfima.

(Escrito por Simone Schuck/postado no Blog Tensa Intensa)