Gaivotas


Cândido Portinari
















 
Voando alto no céu azul,
elas rabeiam sem parar.
Dançando como serpentes,
com seus vermelhos e amarelos,
num balé que não tem fim.
Os meninos, olhos abertos,
latas presas entre as pernas,
mãos rápidas e espertas,
vão guiando suas crias.
Por um descuido ou impresteza,
se uma linha se arrebenta,
vai-se embora a bela pipa,
com destino meio incerto.
A molecada enlouquece,
com vontade de gritar,
e o menino corre logo,
pra outra pipa empinar.

(Elís Cândido/fevereiro de 2012)

Amores

Amo!
Sim, eu amo.
Haverá pecado em amar assim?
Haverá medidas para este mal de amar?
Sinto que amo demais.
Mais do que deveria.
Mais do que poderia.
Mais do que amo a mim.
Será vergonha então isto o que sinto?
Este arder, esta paixão?
Será doença ou um feitiço,
o que me arranca o coração?
Quem souber, me diga logo,
se deste amor irei morrer,
pois irei então correndo,
nos braços dela fenecer.


(Elís Cândido/fevereiro de 2012)

Mineirices

Crianças Brincando - Heitor dos Prazeres, 1964
Meu quintal de chão batido,
na estiagem tão sofrido,
ficava todo agradecido,
quando a chuva o vinha molhar.
Num instante se refrescava,
a casa toda em festa ficava,
com seu cheiro pelo ar.
Meu quintal vermelho ouro,
da bola de gude e amarelinha,
das galinhas ciscando milho,
do pião rodando solto!
Meu quintal tão pequenino,
no meu tempo de menino,
era meu maior tesouro.


(Elís Cândido/fevereiro de 2012)

Voo sem volta


Passarinho tão feliz,
no seu ninho a cantar.
Canarinho amarelo, 
pelos ares a voar.
A família barulhenta,
boquinhas nervosas
a esperar,
pela mãe, que já voltava,
com comida pra lhes dar.
O pai, zeloso, vigiava,
sempre atento aos perigos,
que pudesse observar.
Tão feliz esta família,
amarela a cantar.
Todo dia indo e vindo,
sua prole alimentar.
Mas o pobre pai canário, 
tão alerta e vigilante,
não sabia que o espreitava,
um humano ignorante.
Teve a ideia, o infeliz,
de capturar a pobre ave.
E colocá-la na gaiola,
onde canta, sem parar.
- Como canta, este canário!!
diz  o ser sem coração.
Ele não vê que ele grita,
de dor e preocupação,
desespero de um pai,
sua mais pura aflição,
ao ver de longe seus filhotes,
nas garras do gavião!


(Elís Cândido/fevereiro de 2012)

Complexidades


Às vezes, gosto de ficar só.
Somente eu e o silêncio.
E mais nada.
Ninguém.
Gosto de ouvir minhas próprias palavras.
Sussurradas em meus ouvidos.
Discutindo minha relação comigo mesma.
Às vezes, gosto de imaginar coisas.
Diferentes realidades.
Fingir ser quem eu não sou.
Ou não ser quem sou...
Algumas vezes, me perco em meio a tantos pensamentos.
E outras, me perco no vazio absoluto de idéias.
Complexidades.
Você não entenderia se eu explicasse...
São conversas tão íntimas,
que apenas eu compreendo.


(Elís Cândido/fevereiro de 2012)