Indagações

 
Menina,
o que você quer ser quando crescer?
Vai querer mudar o mundo.
Salvar os animais indefesos.
Desfilar em passarelas.
Cantar e encantar...

Que causas vai abraçar?
Neste mundo de desiguais.
Vai saber amar ao próximo.
Respeitar as diferenças.
Lutar pelas tuas crenças...

O que te move?
O que te faz pensar?
Quais os teus sonhos?
Até onde quer chegar?
Minha menina,
de armadura e salto alto?

(Elís Cândido/agosto de 2011)






Sobre Ovelhas e Lobos

Imagem retirada do blob: momentosdeepifania.blogger.com.br

Meu coração ainda dói.
Sangra ainda.
E o meu corpo está cansado.
Tenho vontade de chorar.
E chorar.
E chorar...
Até me desfazer em um mar de lágrimas salgadas.

Como existir sem sofrer?
Como?
As pessoas se acotovelam e se machucam. Jogam as suas culpas nos outros. Nos ombros mais frágeis. Nos mais calados. Nos que menos sabem se defender.
Como sobreviver neste mundo? Com esta gente tão hipócrita!
Não consigo não me envolver. Não defender meus pontos de vista. Não gritar às injustiças!
Não consigo!
Mas há dias em que me sinto cansada de tentar fazer o que acho certo e terminar vendo tudo continuar errado. Sempre.
Até quando vou ter forças para não sucumbir e me tornar igual a eles? Ou virar um zumbi sem opinião, sem forças, sem expressão...
Não quero ser mais uma ovelha tola neste pasto. Abanar a minha cabeça e concordar com tudo.
Prefiro ser o lobo! Ser vista como louca ou desordeira. Ser caçada pelos séquitos deste império que justificam seus desvairios com a velha e surrada desculpa: "Estou apenas cumprindo ordens!"
Vou continuar sendo assim como sou: Se erro eu assumo. Se não gosto eu grito. Se não concordo eu digo. Se não quero, me nego a fazê-lo. Quem me manda sou eu!
Mesmo que eu sofra depois...

(Elís Cândido/agosto de 2011)

Noite de Lua

Fiquem quietos...
Escutem o que te falam os ventos.
Parem!
Ouçam os teus pensamentos...
Ou os meus,
ou os dela.
Ouçam!

Às vezes falamos demais!
Gritamos demais.
Corremos demais.
Para quê?
Para onde?
Calma!

Façamos silêncio!
E deixemos falar apenas os nossos corações.
Descansemos os nossos pés,
já calejados pelas andanças diárias.

Vamos olhar a lua!

Ou quem sabe, então, cantemos!
Canções que falem de paz e de amor...
E, embalados por elas,
poderemos rodopiar por uma noite inteira!
Feito crianças...

Pelo menos esta noite...

(Elís Cândido/agosto de 2011)

Intolerâncias

Será que só eu sinto
esta raiva que me consome.
Esta intolerância desmedida?!
Será que apenas eu me irrito
e quero gritar ao mundo
que está tudo errado.
Que já chegamos ao fundo?!


Chega!
Não agüento mais!
Me cansei da humanidade.
Me cansei das máscaras.
Das desculpas.
Dos desmandos.
Dos descasos.
Dos descompromissos.
Da falta de amor.


Já não consigo ouvir o cantar da passarada!
Minha cabeça anda lotada
de vozes que me sussurram palavras de ordem.
Me sinto um robô
Quero me desfazer do maquinário.
Sair de cena.
Retirar a indumentária
e não dizer as mesmas palavras ensaiadas.
Gastas.
Surradas.
Palavras que já não me dizem nada!


Chega!
Será que só para mim
que a vida anda assim?!


(Elís Cândido/agosto de 2011)



O Tempo Roubado ou o Tempo Vivido?


O tempo passa...
E Ele passa tão rápido, que às vezes nem percebo seu passar. Mas ele caminha a passos largos, segue veloz, ceifando meus minutos futuros.
Queria poder ser amiga do tempo. Queria não lutar com ele, ou contra ele. 
Mas ele teima em levar embora a minha juventude, os meus sonhos... teima em fazer dos meus filhos, ontem mesmo tão pequenos e indefesos, hoje jovens crescidos e corajosos, sem medo de nada, sem medo da vida, sem noção do tempo. Eles acham que têm muito tempo... Mas o tempo caminha veloz para eles também!
Minha doce menina, que nunca quis ser bailarina, hoje sonha com trabalhos e carreira, sonha em conquistar o mundo e uma tal "independência"...
Meu pequeno sonhador, sofre as dúvidas de uma adolescência perversa, que massacra aqueles que são diferentes, inseguros, de alma pura e coração aberto. O mundo cobra que ele seja igual a todos: frio, levado por interesses superficiais, "inoxidável".
Sim! O tempo passa para eles. Eles só não percebem, ainda.
Mas eu não tenho como fingir que não o percebo. Ele, o tempo, deixou marcas em mim. Não apenas as marcas que surgem teimosas no meu rosto, não somente os meus cabelos que se tingiram de branco... Ele me deixou outras marcas, bem mais profundas. Fazem parte de mim hoje todas as lembranças daqueles que já não compartilham mais desta vida comigo, as saudades dos sorrisos e das aventuras, as dores de todas as decepções, traições, as culpas por todos os erros cometidos... Bagagens que o tempo me deixou de herança!
Quando tento me reconciliar com ele,  ouço atentamente quando ele diz que estas lembranças são parte da minha evolução, do meu crescimento espiritual. Ele me diz que aprendi a cada tropeço. Que fiquei mais forte cada vez que me reergui. Que ele me recompensa com sabedoria e complacência cada ruga surgida em minha face... Ele me diz que não devo enxergá-lo como um Tempo Roubado de mim, mas sim como Tempo Vivido. Como ganhos e não como perdas...
Às vezes até acho que ele tem razão. Afinal, o tempo já é tão velho que deve ser sábio! Quem sou eu para discutir com ele!
Mas em outros dias, queria mesmo era driblar o tempo! Voltar a ser uma garota sem preocupações, com meus pais ao meu lado ditando o caminho, com as gargalhadas na saída da escola, com os amores sem compromisso...
Só que neste exato momento uma coisa me faz sair deste devaneio e voltar à realidade: é meu filho que saiu do banho e mais uma vez esqueceu da toalha!  MÃÃÃEEE!!
Esta sou eu! Não mais a menina... Não mais sem compromissos... Não mais! Meu tempo agora é outro. É este!
Eu sou A MÃE. É esta quem eu sou e esta quem quero ser! Quero ser aquela de quem os meus filhos irão se lembrar quando este senhor chamado tempo tiver passado para eles também. Quero ser a saudade boa, a presença constante, a certeza do afeto... Quero ser a lembrança gostosa que nada pode apagar, nem mesmo ele, o tempo! Se há uma coisa que eu aprendi com o passar destes anos, é que há coisas que o tempo muda, há coisas que o tempo leva, mas nada consegue mudar o amor de uma mãe pelos seus filhos.

(Elís Cândido/julho de 2011)