Coisas de mãe


Carnaval... Minha filha adolescente decidiu ir passear em Angra com parentes. Sem mim! Eu fiquei... Ficamos eu e meu filho caçula. Sorte que é ter filho caçula, assim a gente tem tempo pra ir se acostumando com as ausências do filho mais velho...
O Carnaval foi meio diferente daqueles versos da antiga marchinha... não durou apenas três dias. Foram intermináveis dias e noites de uma ausência sempre presente. Falávamos ao telefone e por vezes no bate-papo, mas cabeça de mãe é bicho estranho. São tantas caraminholas, tantas preocupações: acidentes na rodovia, liga pra ela, notícia de afogamentos, liga pra ela, criança atropelada por jet ski, liga pra ela... Parei de ver o noticiário da TV.
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Mas o Carnaval acabou e finalmente neste sábado ela voltou! Feliz! Linda! Pretinha de sol!
A vida vai voltar ao normal. Eles vão começar a brigar... A falação sem parar... As noites no Facebook... Eu histérica mandando todo mundo ir para a cama...
Antes de ir dormir passo pelo quarto e dou uma olhada: lá está ela, minha pequena quase adulta, domindo tranquila seu sono anjelical.
Também eu vou dormir, com o meu coração tranquilo e meu caçula espalhado em minha cama, aproveitando a sobra das mordomias do Carnaval.
Tudo voltando a ser como sempre foi.
Santa rotina.
Graças a Deus!

(Elís Cândido/fevereiro de 2012)

Grandes Poetas


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

(Manoel de Barros)

Folia Nacional












Carnaval Festa Profana,
das carnes e da fartura,
da alegria e da euforia.
Carnaval da terça gorda,
que antecede ao sofrimento,
às cinzas e ao jejum.
Carnaval, suor e samba,
entrudo e limão de cheiro,
folia e ziriguidum,
da mulata escultural,
de Pernambuco ao Rio de Janeiro,
Patrimônio Cultural.
Me perdoem os franceses
e a beleza de Veneza,
mascarada com requinte,
mas não há no mundo inteiro,
Carnaval mais verdadeiro,
do que este do Brasil,
com confete e serpentina,
frevo, maracatu e timbalada
e nossa gente animada,
sob o céu azul anil.

(Elís Cândido/fevereiro de 2012)

Semana de Arte Moderna


A Semana de Arte Moderna foi uma explosão de idéias inovadoras, que aboliam por completo a perfeição estética tão apreciada no século XIX. Mas todo novo movimento artístico é uma ruptura com os padrões utilizados pelo movimento anterior e nem sempre o novo é bem aceito, o que ficou bastante evidente no caso do Modernismo, que, a principio, chocou por fugir completamente da estética européia tradicional.
Na Semana de 22, nossos artistas demonstraram que buscavam identidade própria e liberdade de expressão. Com este propósito, experimentavam diferentes caminhos sem definir nenhum padrão. Isto culminou com a incompreensão e com a completa insatisfação de grande parte dos que foram assistir a este novo movimento.
Durante a leitura do poema "Os Sapos", de Manuel Bandeira (leitura feita por Ronald de Carvalho), o público presente no Teatro Municipal fez coro e atrapalhou a leitura, mostrando desta forma sua desaprovação. As críticas foram severas também em relação às artes plásticas, como já demonstrado nos posts anteriores. E também a música não foi poupada.
Durante três dias houve muitas apresentações musicais. Além de Villa-Lobos, foram interpretadas obras de Debussy, por Guiomar Novaes, e obras de Eric Satie, por Ernani Braga, o qual também interpretou "A Fiandeira", de Villa-Lobos.
Mas, Villa-Lobos foi, sem dúvida, um dos mais importantes e atuantes participantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Ele apresentou uma série de três espetáculos. A atitude do público para com Villa-Lobos é, a princípio, mais respeitosa, se comparada aos coaxos e vaias dispensados a Oswald de Andrade e ao poema "Os Sapos", de Manuel Bandeira. Mas durante um dos concertos ele foi ridicularizado diversas vezes, pois torcera um pé e entra no palco a coxear, de casaca e calçando sapato em um pé e chinelo no outro. A multidão acompanha-lhe o passo, marcando o ritmo exato do pé doente...
Embora tenha sido alvo de muitas críticas, a Semana de Arte Moderna só foi adquirir sua real importância ao inserir suas idéias ao longo do tempo. O movimento modernista continuou a expandir-se por divulgações através da Revista Antropofágica e da Revista Klaxon, e também pelos seguintes movimentos: Movimento Pau-Brasil, Grupo da Anta, Verde-Amarelismo e pelo Movimento Antropofágico.
O Chovendo Letras, através de uma semana inteira de postagens que tentaram reproduzir os fatos acontecidos na Semana de 22, deixa aqui a homenagem a este movimento tão importante para a descoberta de novos rumos, verdadeiramente brasileiros, para a nossa cultura, tão vasta e diversificada. E que fique o registro: SIM! Nós temos TALENTO!


Semana de Arte Moderna

15/02 - A noite que celebrizou a semana começa com um discurso de Menotti del Picchia sobre romancistas contemporâneos, acompanhado por leitura de poesias e números de dança. É aplaudido. Mas, quando foi anunciado Oswald de Andrade, começaram as vaias e insultos na platéia, que só param quando sobe ao palco a aclamada pianista Guiomar Novaes. Observem as críticas na reprodução acima. (Fonte:http://www.febf.uerj.br/pesquisa/semana_22.html)
Segue abaixo o poema "Os Sapos", de Manuel Bandeira, que não compareceu ao evento, mas enviou seu texto para que fosse apresentado:


Os Sapos

Enfunando os papos, 
Saem da penumbra, 
Aos pulos, os sapos. 
A luz os deslumbra. 

Em ronco que aterra, 
Berra o sapo-boi: 
- "Meu pai foi à guerra!" 
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". 

O sapo-tanoeiro, 
Parnasiano aguado, 
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado. 

Vede como primo 
Em comer os hiatos! 
Que arte! E nunca rimo 
Os termos cognatos. 

O meu verso é bom 
Frumento sem joio. 
Faço rimas com 
Consoantes de apoio. 

Vai por cinquüenta anos 
Que lhes dei a norma: 
Reduzi sem danos 
A fôrmas a forma. 

Clame a saparia 
Em críticas céticas:
Não há mais poesia, 
Mas há artes poéticas..." 

Urra o sapo-boi: 
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!" 
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". 

Brada em um assomo 
O sapo-tanoeiro: 
- A grande arte é como 
Lavor de joalheiro. 

Ou bem de estatuário. 
Tudo quanto é belo, 
Tudo quanto é vário, 
Canta no martelo". 

Outros, sapos-pipas 
(Um mal em si cabe), 
Falam pelas tripas, 
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!". 

Longe dessa grita, 
Lá onde mais densa 
A noite infinita 
Veste a sombra imensa; 

Lá, fugido ao mundo, 
Sem glória, sem fé, 
No perau profundo 
E solitário, é 

Que soluças tu, 
Transido de frio, 
Sapo-cururu 
Da beira do rio...

(Manuel Bandeira)