Um Brasil de Brasileiros

     
     Todo país precisa ter características culturais que o definam. Com o Brasil não deveria ser diferente. Mas nossa história nos empurra para uma tradição de aceitação de tudo aquilo o que vem de fora como melhor do que o que nós oferecemos, do que aquilo o que nós produzimos. É a nossa herança de colonizados. Ao longo de toda a nossa história fomos sendo treinados, catequizados, digamos assim, para a aceitação de uma cultura imposta. Quando éramos apenas nós mesmos, ou seja, quando éramos apenas índios, tínhamos nossos hábitos, costumes, tradições. Tínhamos nossos valores éticos e morais. À partir do momento em que mantivemos contato com os homens brancos, tudo aquilo o que sabíamos foi considerado menor, feio, vergonhoso, sem valor. Nos vestiram, nos ensinaram a rezar, a falar, a trabalhar. Como se já não fizéssemos isto por toda uma existência. Quando chegaram aqui os negros africanos, também eles foram tratados assim. Tudo o que sabiam, faziam ou sentiam não significava mais nada. Apenas os valores dos dominantes é que deveriam ser seguidos... E desta forma foi sendo construído este povo que chamamos de "brasileiros". Mas, quem somos nós, os brasileiros, afinal? Não estamos mais sob as armas dos colonizadores. Nem tão pouco sob o jugo dos senhores de engenho. Então porque ainda não conseguimos nos libertar e construir uma cultura de fato BRASILEIRA? Porque, ainda hoje, damos mais importância ao que vem de fora? Isto acontece na moda, na gastronomia, na indústria da beleza, nos padrões comportamentais, no cinema, na TV, na música... 
     É muito comum ouvirmos piadas sobre o Brasil, sobre o povo brasileiro, sobre a corrupção que há no país, sobre as chances de um futuro melhor. Mas as pessoas que fazem estas piadas são as mesmas que constroem esta nação, ou não?! Somos nós que fazemos este Brasil. Somos nós, os BRASILEIROS.
     Pensar sobre a Semana de Arte Moderna de 1922 me fez penar um pouco sobre esta nossa condição de povo subjugado e ignorante. Pois, por mais duro que seja escrever ou concluir isto, é assim que as coisas são. Não há mais mártires, heróis ou poetas. Ninguém mais sonha em defender a nação. A honra da nação. A cultura da nação. Já não há orgulho. Quem é este povo? Quem somos nós? Onde foi que nos perdemos?! Somos um Brasil de brasileiros ou apenas  um amontoado de pessoas vivendo em um mesmo lugar, por mero acaso? Haverá ainda um sentimento maior que nos defina, que nos una, que nos permita resgatar a identidade perdida ou tudo o que foi dito, escrito, feito pelos grandes nomes de nossa história até hoje foi em vão?
Somos, ainda, um Brasil de brasileiros? Pense nisto...

(Elís Cândido/ fevereiro de 2012)

Semana de Arte Moderna



"A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos."

Trecho do Manifesto Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, publicado em 1924 no jornal "O Correio da Manhã", que enfatizava a necessidade de criar uma arte baseada nas características do povo brasileiro, com absorção crítica da modernidade européia. Além de ter provocado discussões sobre o surgimento da consciência nacional, o Manifesto Pau-Brasil conseguiu atualizá-la; rediscutindo a realidade com uma linguagem novíssima. Tão importante para a poesia modernista, já trazia no seu bojo os germes que gerariam o antropofagismo. O Manifesto Pau-Brasil reivindicava uma linguagem natural, avesso ao bacharelismo e pedantismo, conclamava a originalidade nativa. O primitivismo como imaginação, liberdade de espírito, a junção do moderno e do arcaico brasileiro culminando com uma revolução artística nacionalista tendo por base suas raízes primitivas.

Um Pouco de Cor e de Beleza...

Pedra da Gávea - Cândido Portinari

Gaivotas


Cândido Portinari
















 
Voando alto no céu azul,
elas rabeiam sem parar.
Dançando como serpentes,
com seus vermelhos e amarelos,
num balé que não tem fim.
Os meninos, olhos abertos,
latas presas entre as pernas,
mãos rápidas e espertas,
vão guiando suas crias.
Por um descuido ou impresteza,
se uma linha se arrebenta,
vai-se embora a bela pipa,
com destino meio incerto.
A molecada enlouquece,
com vontade de gritar,
e o menino corre logo,
pra outra pipa empinar.

(Elís Cândido/fevereiro de 2012)

Amores

Amo!
Sim, eu amo.
Haverá pecado em amar assim?
Haverá medidas para este mal de amar?
Sinto que amo demais.
Mais do que deveria.
Mais do que poderia.
Mais do que amo a mim.
Será vergonha então isto o que sinto?
Este arder, esta paixão?
Será doença ou um feitiço,
o que me arranca o coração?
Quem souber, me diga logo,
se deste amor irei morrer,
pois irei então correndo,
nos braços dela fenecer.


(Elís Cândido/fevereiro de 2012)