Primavera Ausente

Chove lá fora
e aqui dentro faz frio.
As horas se arrastam lentamente,
me arrastando com elas
para um mundo de loucura
onde nada faz sentido.
Acordo e durmo,
deito e levanto
e nada parece mudar,
nem o tempo,
nem a chuva,
nem eu mesma.
Dias cinzentos.
Ares sufocantes.
Palavras engasgadas.
Pesados silêncios.
Quando voltará a primavera?

(Elís Cândido/novembro de 2011)

Uma Visão do Fim do Mundo


Cairão os céus sobre as nossas cabeças, numa tarde que se fará noite. Em tempos que parecerão eternos. E tudo então se acabará. Haverá dos céus um estrondo, como nunca antes se ouviu. E feixes de luz cortarão as nossas vistas como carruagens de fogo. Muitos tentarão salvar-se. Poucos o conseguirão. Para os que se salvarem (Será que podemos chamar salvação?), haverá ainda muita tristeza. E dificuldades sem fim. Os pastos não mais verdejarão. As águas estarão infectas. Rios e mares chorarão as dores de uma Terra adoecida e mutilada pelas maõs dos homens. Serão dias de uma escuridão nunca vista. O breu tomará o mundo, numa nuvem pesada e sufocante. Aqueles que respirarem de seus odores cairão por terra. Os que conseguirem ficar a salvo, não deverão sair de suas casa. Lá, poderão iluminar-se com a luz santa vinda das velas de cera. Serão três dias e três noites. Serão estes os tempos da colheita. Da purificação. Sobrarão apenas os escolhidos. Aqueles que foram eleitos. O arco-íris surgirá então na Terra. E assim também o Sol. E a Terra renascerá!

Estátua de Areia

Fui moldada pelas mãos delicadas do artista
que por amor me fez bela
e pela dor me fez triste.
Esculpida no desejo insano de um amante
à procura daquele amor
que não mais retornará.
Lágrimas de sal alicercaram minhas formas
para que eu pudesse suportar os ventos mais fortes.
Uma obra-prima! 

Olhares curiosos amontoam-se ao meu redor.
Mas não me vêem.
Não me enxergam.
Vêem apenas uma estátua de areia.
Cinza, fria e úmida como as noites de inverno.
Tenho tanto calor em mim!
Não percebem, estes tolos.
Apenas olham e se vão.
Eu fico.
Só.

Meu artista não retorna?
Outro dia e ele não vem...
Gaivota me falou que ele anda em outras praias,
esculpindo novas formas.
Sinto que me abalo e me desmancho.
Rogo ao mar para que me leve!
Não tem sentido a minha existência,
sem o meu dono e senhor,
sem meu artista e criador.
Por ele nasci e por ele morrerei.

De volta ao início,
onde eu era apenas pó!

(Elís Cândido/novembro de 2011)

Os Lados


Há um lado bom em mim.
O morto não é responsável
Nem o rumor de um jasmim.
Há um lado mau em mim,
Cordial como um costureiro,
Tocado de afetações delicadíssimas.

Há um lado triste em mim.

Em campo de palavra, folha branca.

Bois insolúveis, metafóricos, tartamudos,

Sois em mim o lado irreal.

Há um lado em mim que é mudo.

Costumo chegar sobraçando florilégios,
Visitando os frades, com saudades do colégio.

Um lado vulgar em mim,

Dispensando-me incessante de um cortejo.
Um lado lírico também:

Abelhas desordenadas de meu beijo;

Sei usar com delicadez um telefone,
Nâo me esqueço de mandar rosas a ninguém.

Um animal em mim,

Na solidão, cão,
No circo, urso estúpido, leão,
Em casa, homem, cavalo...

Há um lado lógico, certo, irreprimível, vazio

Como um discurso,
Um lado frágil, verde-úmido.
Há um lado comercial em mim,
Moeda falsa do que sou perante o mundo.

Há um lado em mim que está sempre no bar,

Bebendo sem parar.

Há um lado em mim que já morreu.

Às vezes penso se esse lado não sou eu.



(Paulo Mendes Campos)

A Viagem




Deitado sobre a pedra fria
ouço os soluços ao longe
e os passos daqueles que se achegam
para o derradeiro momento.


Não sinto frio ou dor.
Na verdade nada sinto.
Um estado de completude me toma
e nada mais me falta.


Não sei para onde vou.
E não carrego bagagens.
Trago apenas as lembranças.
Guardadas dentro de mim.


Já não tenho mais desejos
ou sonhos, ou sofrimentos.
Estou aqui e é só.
Este momento derradeiro é tudo o que existe.


(Elís Cândido/novembro de 2011)