Responsabilidade X Competência

Tenho observado ao meu redor, principalmente dentro do serviço público, que é onde atuo, as pessoas assumindo responsabilidades para as quais não estão preparadas. 
Uma das maneiras mais comuns de se chegar a um cargo mais alto, dentro do meio público, é através da política, ou da politicagem, em alguns casos. Normalmente, o que vemos nas administrações são prefeitos e governadores que se cercam de pessoas "da sua confiança", como aliás, a nomenclatura dos cargos já sugere: são cargos de confiança. Então, o que acontece, na maioria das vezes, é que são colocadas em papéis essencialmente técnicos pessoas sem o menor preparo, sem a menor noção daquilo o que as espera. São Secretários, Assessores, Diretores, Chefes de Setores, que simplesmente desconhecem os meandros do serviço público. E aí, vimos de tudo: são professoras como secretárias de saúde, administradores como secretários de educação, pedagogos como secretários de obras e saneamento... e por aí a coisa vai. De mal a pior, mas vai.
Não seria muito mais acertado se, ao sermos convidados para exercer alguma atividade para a qual não temos competência, simplesmente fôssemos sinceros e diséssemos: Infelizmente não vou poder aceitar o seu convite, pois não me sinto preparado para o cargo...? Ou então, pelo menos, termos como assessores diretos ou parte da equipe de trabalho, pessoas qualificadas, técnicos, aptos a nos orientar e a nos conduzir corretamente para o sucesso e crescimento da cidade?
Tive a oportunidade de vivenciar uma situação destas. Em um determinado momento da minha vida, fui assessora de uma excelente profissional. Uma mulher experiente, formada dentro da área onde atuávamos, com grande entendimento das suas funções junto à Secretaria da qual era gestora. Tenho certeza de, assim como ela, ter sido ótima profissional. Fiz o meu trabalho sempre com dedicação e esmero. Conhecia todos os Programas e Projetos da Secretaria, sabia da capacidade de cada funcionário, antecipava as necessidades da equipe. Éramos um time completo. Com a saída da nossa chefe (para um trabalho junto ao Governo do Estado) fui indicada para assumir o seu lugar. Nada demais! Afinal, eu já estava por trás de cada ação, de cada atividade, já era responsável pelas prestações de contas... Enganou-se quem pensou assim... Havia muita coisa que eu sabia, mas havia outras tantas para as quais eu não estava preparada. E chefiar era uma delas. Eu não tinha, ou melhor, não tenho, perfil para comandar uma equipe. Nem mesmo uma equipe que eu já conhecia bem. Acho até, que neste caso, ser íntima deles foi um fator dificultante para mim. Tenho tendência a ser centralizadora demais. Delegar tarefas me é difícil. E além disto, me envolvo com os problemas pessoais da equipe, sou condescendente e isto tira um pouco do pulso forte que se faz necessário em cargos de comando... Enfim... Sou melhor como executora ou mesmo organizadora do que como chefe.
Esta relação entre responsabilidade e competência pode definir o sucesso ou o fracasso de uma administração, de um governo e por conseqüência, de toda uma cidade, estado, nação. É uma pena percebermos que a vaidade ofusca o senso crítico e faz com que as pessoas se vejam sempre como "o melhor naquilo o que faço".
No final das contas, quem acaba pagando a conta dos atrapalhos políticos somos nós, que nada temos a ver com estas tristes e desacertadas escolhas!

(Elís Cândido/maio de 2011)

Abismos





















Subi até onde pude.
E então parei.
O ar entrava rasgando meus pulmões
E o vento me arrancava a pele.
Eu estava lá!
No lugar mais alto
onde se possa chegar.
No topo da colina
Lugar que todos desejam estar.
Eu estava lá!
Do alto, podia ver a cidade
bem pequena
aos meus pés.
O mundo aos meus pés!
Eu reinava.
Soberana.
Absoluta.
No topo do mundo
E de tudo.
Então sorri.
Sorri sozinha.
Não havia ninguém ao meu lado.
Ninguém mais me acompanhava
A não ser eu mesma
E as aves de rapina
à espreita do meu fracasso.
Mau agouro...
Fechei meus olhos
e desfrutei o prazer insano do poder.
Um vazio me tomou a alma
e percebi que não havia mais caminhos a trilhar.
Não havia mais para onde ir...
O topo é o limite.
O fim.
O passo a frente era o abismo.
Olhei para baixo e tremi....
Entendi que para prosseguir,
deveria recuar.
Refazer o caminho.
Voltar às origens.
Inventar outros objetivos...
Voltar a sonhar.
Decido e desço.
Na caminhada vejo outros,
como eu.
Retornando a vida...
Mais a frente, vemos outros,
corpos desfeitos daqueles
que não conseguiram parar.
Filhos da ganância!
Tenho pena deles.

(Elís Cândido/maio de 2011)

Entardecer

Imagem retirada de olhares.com
Entardeceu...
As nuvens correm apressadas pelo céu
E a passarada disputa um galho na árvore mais alta
Andorinhas ruidosas festejam o final de mais um dia
E as palmeiras balançam suas folhas de alegria


Entardeceu...
Azuis e rosas deixam o infinito colorido
O sol desce com preguiça no horizonte
Insetos pequeninos saem de suas tocas
E farejam uma noite de aventuras


Entardeceu...
Lobos e corujas espreitam
Aguardando que o céu se faça breu
Para fugir das tocas e da agonia
Para saciar a fome de todo um dia


Entardeceu...
E aqui sentada eu observo
O movimento ao meu redor
Espectadora de um cenário
Que já amo e sei de cor.


(Elís Cândido/maio de 2011)

Incoerência














Logo, logo, não tão cedo
As contradições se encontrarão
E nessa separação momentânea
Seremos um para o outro
O que sempre fomos
Eternos desconhecidos

(Fabiano Freitas, publicado no Recanto das Letras em 16/03/2011)

Catarse




















As casas dormem ainda
ensaiando um silêncio de morte improvisada.
Nas janelas fechadas
oculta-se um rumor de luzes estranguladas.
O fogo adormecido da quimera
envelhece sob um céu sem luar
junto à rebentação das sombras
onde decifro a solidão fria do inverno
no crepitar da memória incandescente.

Personagem de encruzilhada, busco
um elo que faça ainda sentido
com qualquer coisa conhecida,
enquanto assisto ao desgaste lento das horas
a cavarem um fosso de incertezas
no parapeito arruinado da esperança.
Respiro todos os segredos da escuridão
no mármore arruinado onde repousa
um silêncio de asas mortas
e o gemer surdo do sono adiado.

Ao fundo do corredor
no átrio vago da demora
range a porta da alvorada
a abrir-se para a claridade inesperada do dia.


(postado por Runa, no blog Seguindo o Escoar do Tempo)