A musa








































Porque você se pinta,
menina linda?
Entretida em vaidades,
porque teima em esconder a sua idade
e fingir ser o que não é?


Porque você se pinta,
bela menina?
Ao seu lado sento e espero,
observo o seu esmero,
em brincar de ser mulher.


Para que você se esconde,
entre lápis e pincéis,
entre brincos e anéis,
desperdiçando o seu melhor.


Para que você se pinta,
minha boneca menina,
que não quis ser bailarina,
preferindo a molecada.


Minha pequena sapeca,
valente feito um menino
nariz empinado apontando
seu caminhar, seu destino.


Pinta seu rosto e sorri,
minha princesa querida,
musa tão bela e perfeita,
no amor de Deus esculpida.

(Elís Cândido/outubro de 2010)

Para onde as almas voam...



Para onde as almas voam?
Para onde vamos quando não estamos mais em nós?
Existe vida além desta que conhecemos?
Será a morte final ou recomeço?

Tantas são as perguntas. Enormes são os medos. Ritos e costumes se construiram e se perderam ao redor dela, a morte.
Diferentes são as maneiras de enfrentá-la, de vivenciá-la, de superá-la. Mas o temor é uma constante.
Talvez tenhamos medo da morte exatamente pela certeza que temos de que um dia a teremos que encarar. Desde o dia em que nascemos, esta certeza nos acompanha.
As religiões tentam dar o alento, o entendimento, o esteio. Cada uma a sua maneira, buscam explicar aquilo que é inexplicável. A relação vida e morte, matéria e espírito, início e fim.

Lendo e relendo sobre o tema, as teorias e os estudos, decidi ficar com a idéia Budista de morte, que , na minha opinião, é a mais simples, bonita e próxima de uma verdade científica.

Para os Budistas, quando morremos nossa parte física, nossa matéria, não morre, não acaba. Nos transformamos em partes de outras matérias, passamos a compor o universo através das partículas que se desagregam e se incorporam nas árvoes, nas plantas, no ar, em tudo o que tem vida. Assim, não morremos. Estaremos sempre vivos.
Também para eles, nossas palavras e ações transformam-se nas energias nelas contidas e espalham-se pelo cosmo. Por isso é tão importtante ter boas palavras, palavras de amor e paz. Por isso precisamos ter boas ações... Tudo o que fizermos e o que dissermos irá se transformar em energia e ficará vivo para sempre!

Gosto de pensar assim. É mais reconfortante acreditar que quando nossa matéria se for, ainda estaremos aqui. Ainda faremos parte do mundo.


Para mim não há mais mistérios...
As almas voam para jardins distantes.
Viram árvores e flores.
Viram estrelas, viram LUZ!

E não é isto o que sempre disseram?

(Elís Cândido/setembro de 2010)

Pelo direito de falar


Odeio as pessoas que se calam. Se omitem.
Talvez eu deva dizer que odiar seja demasiado exagero, mas, definitivamente, eu as desprezo.
Sei que a minha característica mais marcante é minha língua afiada, minha mania de falar pelos cotovelos, minha incansável tagarelice... Sei também que nem todas as pessoas são ou deveriam ser assim.
Muitas são mais tímidas, mais retraídas, mas todas devem ter opinião, vontade própria, princípios... Ou não?!
Não consigo compreender pessoas que se calam, que consentem com atitudes erradas, com desmandos e desvairios sem sequer questionar.
Este estilo "vaca de presépio" me irrita!
Me irrita perceber que cada vez mais as pessoas escolhem ficar caladas, omissas, a tomar uma postura coerente com seus pensamentos e ideais. Escolhem o "lugar seguro"...
Esta mania de ficar bem com tudo e com todos está transformando as pessoas em seres sem direção. Ninguém consegue ficar sempre bem com todos, em algum momento vamos ter que discordar, discutir, argumentar...

Quando esta síndrome da vaca de presépio afeta políticos então, meus Deus!! Como é possível governar, gerir, desenvolver uma carreira política quando se tem medo de falar, de enfrentar, de dar a cara a tapa?
A mim, parece sintoma de fraqueza...
Governar é, na maioria das vezes, desagradar, discordar, questionar. Ser justo ou ser bom? Agradar a todos ou fazer o que é certo para a maioria? Ser bom ou ser omisso?
Eu governo a minha casa, a minha família, os meus filhos... Nem sempre consigo agradá-los. Mas sempre tento fazer o que é certo! Não me encolho ou me escondo quando as crises aparecem... Não me calo!
Muitas vezes sou eu a voz que orienta. Outras vezes sou eu quem precisa ser orientada por eles. Mas, se eu me calo, como eles irão saber? Como nós vamos saber?
Escolho sempre falar.
Escolho sempre dizer aquilo que penso e o que sinto.
Escolho me expor a me esconder em falsas posturas.

Não sei economizar palavras!
Mesmo que elas não agradem.
Mesmo que não sejam o esperado.
Escolho sempre o direito de falar.

(Elís Cândido/setembro de 2010)

Vilarejo

Jevange
CASEBRES
"Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
(...)

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos

E essa canção
Tem o verdadeiro amor
Para quando você for"

(MARISA MONTE)

Viagem


"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: "Não há mais o que ver", sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."

(José Saramago)