Vazio

Estranhos são estes dias. Dias nublados. Olho para dentro de mim e não vejo nada. Sou apenas uma página em branco. Não há cor. Nem movimento. Nada. Apenas o vazio...
Quando vou voltar a habitar em mim?

(Elís Cândido/20 de agosto de 2010)

Primavera Escrita


Tudo o que aqui escrevo
começa como Palavra
que me surge em pensamento
e toma conta de tudo
monopoliza o momento

Ela então se multiplica
se divide,subtrai
vira outras
vira frases
ganha alma e sentido

Como planta vai brotando
cria ramos e raiz
vira coisa
vira verso
florindo de dentro de mim.

(Elís Cândido/agosto de 2010)

Amo-te


O amor que eu tenho em você
Acho que ninguém mais tem
O amor que faço com você
Não faço com mais ninguém

Amo seu peito
Seu pelo
Seu cheiro
Amo seu corpo quente
Roçando em mim

Amo o toque dos seus dedos
e até os calos das suas maõs

Seus cabelos crespos
Grisalhos
Este sorriso morno
E o olhar manso

Conheço seus pensamentos
E o seu jeito de andar

Você é meu porto seguro
Minha loucura
E tentação
Minha metade
Meu oposto

Não há lugar algum
Onde mais eu queira estar
Que aqui amando você
E deixando você me amar.

(Elís Cândido/12 de agosto de 2010)

A vida no morro

Tarsila do Amaral
MORRO DA FAVELA
Morar no morro é bom. O povo daqui é gente humilde, trabalhadora, gente boa. É bom poder ouvir o vento brigando com as folhas das palmeiras, os gritos das maritacas em revoada, o apito triste do trem e a farra da molecada nos dias de pipas.
Nas tardes quentes de verão, as comadres e compadres sentam-se nos portões até o anoitecer, falando da vida alheia, falando da própria vida, falando das novelas, dos filhos, dos maridos, do futebol... Assuntos não faltam numa rodinha lá do morro. Não há nada que escape das matraqueiras de plantão. Quer saber das novidades? Apareça numa rodinha lá do morro...
No outono tem sempre frutas para alegrar a meninada. Tem goiaba, tem abacate, acerola, tem banana, jabuticaba, tem manga e cana também. Umas frutas se ganha, outras se rouba no pé. Coisas boas do morro!
A boa gente lá do morro não se fantasia. Cada um é aquilo que é, sem tirar nem por. Não precisamos fingir, todos sabem quem somos, todos se conhecem, todos compartilham das mesmas realidades. É claro que todo morro tem sempre uma "Conceição", como aquela da música do Calby Peixoto. Uma pessoa que vive travestida de madame, que não cumprimenta ninguém, que finge ser o que não é, mas não engana ninguém. Não aqui no morro... Mas este tipo é caso raro e serve para assunto nas rodinhas de portão.
Festa no morro é churrasco, com cerveja e (pasmem) vinho tinto bem gelado! Animação é o que não falta! E nem foguetes. No morro a gente solta fogos no Natal, na vitótia do time do coração, no Carnaval, no Ano Novo, no dia do Santo Padroeiro... Tudo é motivo para foguetório!
Cachorro aqui é comum. Toda casa tem um. Algumas casa tem dois ou três. Na minha casa temos cinco. Acho que a gente tem amor de sobra...
As travessas e bandejas passeiam de casa em casa. Tudo que a gente faz, divide. Vou levar um pedacinho para a Dona Cecília... e a vasilha nunca volta para casa vazia. Coisas do morro.
E estas coisas fazem do morro um lugar bom de se viver. Um lugar onde o tempo passa devagar, onde a vida é morna e colorida como as tardes de verão.
Morar no morro é bom!

(Elís Cândido/ 11 de agosto de 2010)

Um pouco de cor e de beleza...

Tarsila do Amaral
O PESCADOR