O visitante


Hoje acordei e ao abrir meus olhos deparei-me com ele! Não me causou espanto ou mesmo me assustou. Somos velhos conhecidos. Sua presença me acompanha a longas datas.
Já não me incomoda mais sua face carrancuda ou seus olhos chispados de tensão e de ironia. Me incomoda o peso de ter que carregá-lo em minhas costas... Arrastá-lo para todos os lados como um preso arrasta suas correntes de ferro... Que fardo!
Escorrego da cama e sentada penso que vai ser um longo dia.
Sigo em frente no piloto automático, já que na verdade, não sou eu quem me conduz. Hoje quem tem as rédeas, a direção, é ele!
Todos os meus atos, minhas falas e até meus pensamentos hoje não são verdadeiramente meus. Ele sempre age por mim. Fala por mim. Pensa por mim.
Sou marionete, sou fantoche em suas mãos.
Houve tempos em que tentei me libertar. Quando percebia sua presença, fugia. Cantava. Assobiava. Trabalhava feito louca. Hoje não tento mais resistir... Se ele quer vir, então, que venha!
Afinal, como posso me exorcizar de mim mesma? Daquilo que também sou eu?
Melhor aceitar e conviver com ele.
Nestes dias em que eu sou ele (ou ele sou eu?) é melhor manter distância. Tentar me ajudar vai ser em vão...
Este visitante incômodo age sempre desta maneira: chega sem avisar, fica o tempo que bem quer e vai embora sem se despedir.
Tomara mesmo ele ir!
Ô mau humor que não me deixa!!

(Elís Cândido, julho de 2010)

Duas existências




Numa casa em que faltava
A luz o ar e pão
Entrara ela na vida
Tendo ao seu lado um caixão;

Pois no dia em que nascera
Morrera seu pai também!
Vira assim a luz do mundo
Sozinha com sua mãe!

Num rico, claro aposento
Entre veludos e rendas
Onde as mais pequenas fendas
Para não entrar o frio,
Embora fosse no estio
Se tinham calafetado,
Onde tudo era alegria,
Onde tudo era cuidado
Tinha no mundo ele entrado
Em um esplendido dia!

Crescera só rodeada
Pela dor, pela pobreza,
Pela fome, pelo frio,
Pela miséria e tristeza

Crescera ele ao contrário
Entre risos d'alegria
Entre abundância, opulência
E tendo tudo o que queria.

A mãe dele mui doente
Não podia trabalhar:
A linda e pobre Maria
Tinha pois que a sustentar
Para isso noute e dia
Estava sempre a costurar!

Ele não, não trabalhava,
Alegre vida levava,
De cousa alguma cuidava,
Excepto dos seus prazeres.
Gastava dinheiro a rodos
Mas era célebre entre todos
Pelos seus trens e mulheres!

Maria como uma deusa
Era bela era formosa.
Olhos lindos, graciosa
A boca, e as mãos de fada.
Alta não muito, elegante.
A tez do seu semblante
Mimosa mas descorada.
Tinha mui negro o cabelo
E de tal maneira belo
Que qualquer pessoa ao vê-lo
Ficava extasiada!

Também ele era formoso,
O rosto branco e rosado,
O seu lábio por um buço
Louro e fino assombreado.
Era enfim João um moço
Que devia ser amado.

Por grande fatalidade
Encontrara ele um dia
A linda e casta Maria
Numa rua da cidade.
De ver tão grande beleza
Na miséria, na pobreza
Ficara muito espantado.

De Maria o coração
Palpitara ao ver João!...

.........................................

Poe ela ele foi amado!...
Com grande amor inocente.
Amou-a ele também
Porém... Criminosamente!

........................................

Passou-se o tempo e a pomba
Caiu nas garras do abutre!

.......................................

É bem certo que mui zomba
A previdência no mundo
Com um cinismo profundo
Pois em quanto que Maria
Donzela tão desgraçada
Vendo-se ludibriada
Viver mais tempo não queria
E co'a a vida terminava;
Ele, o infante João
Continuava a viver
Rico, alegre e feliz
Numa vida de prazer!...

(Mário de Sá-Carneiro)

Tua nudez

John Vistaunet


A rosa:
Tua nudez feita graça.
A fonte:
Tua nudez feita água.
A estrela:
Tua nudez feita alma.

(Manuel Bandeira)

Li um dia




Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Digo pra mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?


(Florbela Espanca)

Frases e Pensamentos...

"Viver é inadiável.
Dizer a vida é, muitas vezes, a forma de suportá-la.
Gritar a dor e o prazer, gemer a dúvida e a angústia, sussurrar a ternura, uivar a solidão e o medo...
Dizer é falar com o outro. O grito, o sussurro, o gemido, o uivo, nada são, se não há quem os ouça..."



(Trecho do Prefácio do livro Instantâneos, de Lília Sertã Junqueira)