Derradeira primavera




Põe a mão na minha mão
Só nos resta uma canção
Vamos, volta, o mais é dor
Ouve só uma vez mais
A última vez, a última voz
A voz de um trovador

Fecha os olhos devagar
Vem e chora comigo
O tempo que o amor não nos deu
Toda a infinita espera
O que não foi só teu e meu
Nessa derradeira primavera

(Vinicius de Moraes)

Cansada


Cansada! É assim que eu me sinto hoje. Não é um cansaço físico, é alguma coisa que vem da alma. Estou realmente cansada. Uma apatia enorme tomou conta de mim.
Não quero falar. Não quero sair. Não quero ficar. Apática.
Ligo a Tv e ela não me diz nada. Tudo igual. Aperto as teclas do controle remoto, mas eu é que estou REMOTA. Distante, inacessível.
Acho que hoje não faço parte do mundo. Não compreendo as pessoas ao meu redor. O que é que elas dizem? Que conversa é essa? Quem disse que eu quero ouvir?
Quem são essas pessoas, que falam coisas tão vazias, tão sem sentido. Quantas palavras desnecessárias!
Hoje estou cansada. Queria mesmo o silêncio. O vácuo. Vazio. O nada.

(Elís Cândido/julho de 2010)

Cigano


Sei que não sou sua dona.
Que não te possuo.
Nem tenho esta pretensão.
Ou intenção.

O meu amor não é assim.
Não controlo os teus passos.
Tuas andanças.

Prefiro te deixar livre.
Saber que, se você fica,
é porque assim o quer.
Porque me quer.

Como eu te quero.
E não quero nada mais.
De lugar algum.
Ninguém.

Pelo menos não hoje.
Não agora.
Não ainda.
Hoje eu sou somente sua.

O seu amor me basta.
Me completa.
Me sacia.
Amor sem rédeas.
Cigano.

(Elís Cândido/julho de 2010)

A cadeira vazia


Aquela cadeira vazia,
esquecida no canto da sala,
um dia já teve vida.
Naquela cadeira vazia,
histórias foram contadas,
nas tardes quentes dos verões passados.

No lugar do vazio de hoje,
antes havia alguém.
Um alguém cheio de vida.
Um alguém cheio de luz e de palavras.
Muitas vezes ainda,
um alguém feito de silêncio e dor.

Muitas lágrimas correram daquele rosto cansado.
Muitas noites sem sono,
sentado naquela cadeira antiga.
Aquela cadeira,
hoje vazia.
Sempre amiga.
Sempre à espera.

Sempre.

Falta você.
No seu lugar.
Naquela cadeira
que eu mesma te dei.
Falta você, pai.
Na minha vida.
E naquela cadeira vazia.

(Elís Cândido/julho de 2010)

Eu, eles e um reflexo




Ironia ou não, percebemo-nos mais quando estamos mergulhados em gente. Gente diferente da gente. Gente que não tem os mesmos conceitos, aquele tipo que não oferece nem um debate instigante. Nada. Encontramo-nos. Olha-se para os lados e sente-se um vazio, uma falta de tudo. Nesse momento abre-se espaço para recordar alguém esquecido: nós mesmos.

Isso salva um dia, uma auto-estima, um amor-próprio. E tudo o que pensávamos feio em nós, é visto com outros olhos e admirado. Quanto mais conheço os outros, mais estimo por mim mesma. Sem afetação, com um orgulho que vai crescendo devagar, pouco a pouco.


Uma menina disse-me que não consegue olhar nos olhos de certas pessoas, porque se sente intimidada. E eu, com minha ínfima sabedoria, respondi que com o tempo, vamos criando dignidade o suficiente para se auto-afirmar sem medo.
Estava certa, sim. Já não sou tão ínfima.

(Escrito por Simone Schuck/postado no Blog Tensa Intensa)