Cigano


Sei que não sou sua dona.
Que não te possuo.
Nem tenho esta pretensão.
Ou intenção.

O meu amor não é assim.
Não controlo os teus passos.
Tuas andanças.

Prefiro te deixar livre.
Saber que, se você fica,
é porque assim o quer.
Porque me quer.

Como eu te quero.
E não quero nada mais.
De lugar algum.
Ninguém.

Pelo menos não hoje.
Não agora.
Não ainda.
Hoje eu sou somente sua.

O seu amor me basta.
Me completa.
Me sacia.
Amor sem rédeas.
Cigano.

(Elís Cândido/julho de 2010)

A cadeira vazia


Aquela cadeira vazia,
esquecida no canto da sala,
um dia já teve vida.
Naquela cadeira vazia,
histórias foram contadas,
nas tardes quentes dos verões passados.

No lugar do vazio de hoje,
antes havia alguém.
Um alguém cheio de vida.
Um alguém cheio de luz e de palavras.
Muitas vezes ainda,
um alguém feito de silêncio e dor.

Muitas lágrimas correram daquele rosto cansado.
Muitas noites sem sono,
sentado naquela cadeira antiga.
Aquela cadeira,
hoje vazia.
Sempre amiga.
Sempre à espera.

Sempre.

Falta você.
No seu lugar.
Naquela cadeira
que eu mesma te dei.
Falta você, pai.
Na minha vida.
E naquela cadeira vazia.

(Elís Cândido/julho de 2010)

Eu, eles e um reflexo




Ironia ou não, percebemo-nos mais quando estamos mergulhados em gente. Gente diferente da gente. Gente que não tem os mesmos conceitos, aquele tipo que não oferece nem um debate instigante. Nada. Encontramo-nos. Olha-se para os lados e sente-se um vazio, uma falta de tudo. Nesse momento abre-se espaço para recordar alguém esquecido: nós mesmos.

Isso salva um dia, uma auto-estima, um amor-próprio. E tudo o que pensávamos feio em nós, é visto com outros olhos e admirado. Quanto mais conheço os outros, mais estimo por mim mesma. Sem afetação, com um orgulho que vai crescendo devagar, pouco a pouco.


Uma menina disse-me que não consegue olhar nos olhos de certas pessoas, porque se sente intimidada. E eu, com minha ínfima sabedoria, respondi que com o tempo, vamos criando dignidade o suficiente para se auto-afirmar sem medo.
Estava certa, sim. Já não sou tão ínfima.

(Escrito por Simone Schuck/postado no Blog Tensa Intensa)

Rasuras e outros problemas




Escrever não é concretizar orgulhos, embelezar a folha. Escrever é a realização de algo puramente sujo (e entenda-se aqui realização como colocação no plano real, realmente).


Escrever é o parto sem a felicidade final, ao ver a cria: o resultado é feio e precisa de retoques. Escrever é vomitar, mas não só: escrever é colocar para fora aquilo que já está insuportavelmente ruim por dentro - e tentar melhorá-lo.


Ninguém ama escrever, Escrever dói, cansa, ao mesmo tempo em que alivia. Escrever é uma droga, e vicia. Entretanto, escreve-se muito. É sabido, e não é de hoje, que o ser humano sempre precisou do lixo para criar a arte.

(Escrito por Simone Schuck/ postado no Blog Tensa Intensa

Devaneio da Vida




Se eu morrer, não quero que chorem nem comemorem.
Quero que pensem na vida, na vida de vocês.
Quero que pensem se ela está sendo tão boa, quanto uma vida pode ser.
Se ela está sendo tão divertida, como uma vida pode ser.
Se ela está sendo tão vida, como uma vida deve ser...




(Escrito por Simone Schuck/postado no Blog Tensa Intensa)