A Colcha de Retalhos


A vida da gente é como uma grande colcha de retalhos.
Pequenos pedaços de diferentes tecidos, com diferentes cores e texturas que vão se unindo e se transformando numa enorme composição, que é única, exatamente por ser feita de tantos e tão variados pedaços: um pedaço colorido de momentos felizes, outro meio cinzento como as tristezas e amarguras. Tudo enlaçado com uma linha forte e resistente, de esperança e de sonhos, que une tudo e nos conduz a um acabamento perfeito.
Fico pensando que nesta caminhada, às vezes temos a chance de experimentar momentos únicos de felicidade e afeto que sequer percebemos ou aproveitamos. Reencontrar um velho amigo está entre estes raros momentos. Como é bom poder rever alguém que já fez parte da nossa vida, que soube ouvir os nossos lamentos, com quem já demos boas risadas...
Os amigos são o que há de melhor nesta vida e este sabor não muda com o passar do tempo. Sempre é bom rever os que amamos.
Minha colcha de retalhos hoje ficou mais bonita e lindos quadradinhos de cor e luz somaram-se aos demais, pois reencontrei velhos amigos...
Nestes tempos frios, onde as noites nos lembram como é dura a solidão, vou poder dormir em paz, aquecida no aconchego bom que fica dentro de peito de quem sabe que não está sozinho.
Hoje à noite, sei que vou me embrulhar na minha colcha de retalhos, agradecer a Deus por mais este dia, rezar pelos meus amigos e dormir em paz!

(Elis Cândido/junho de 2010. Dedicado aos bons e velhos amigos do Sul Fluminense)
Ilustração:A colcha de retalhos, de Roberto van der Ploeg

Confissão de Amor


Quando você chegou
era ainda uma coisa pequena
E pequeno o meu amor

No entanto
a cada dia você crescia
aprendia
aprontava
caia
se levantava

A cada dia
e em cada briga
sem que eu notasse
eu mais te amava

E você cresceu
e ficou GRANDE
de verdade
Se fez homem
sem deixar de ser criança

Aquela
mesma
pequena
travessa
que eu amava

E um dia
também você amou
como todo homem ama
Foi feliz
e foi amado

Mas o destino
sorrateiro
tinha planos
Não os meus
Não os seus
Tristes planos

E assim,
o amor se fez vida
e o amor se fez morte

Na vida
virou semente
Victor Hugo - um novo amor

Na morte
(piedosa?)
o final da sua dor

Meu coração arrancado
chora agora sem entender
Como pude te amar tanto?
Como? Sem perceber?!

Só com a perda foi que vi
e aqui declaro o meu amor
que é imenso
que não se acaba
que me conforta
e me faz crer

Me faz crer que a despedida
não é eterna
é passageira
e eu não preciso sofrer

Sei que hoje só me resta
acreditar no reecontro
para me manter viva
para me fazer forte
para cultivar sua semente
E esperar...

Esperar até que um dia
o destino me permita
noutra vida te encontrar.

(Elís Cândido/escrito em novembro de 2003 para o meu irmão Carlos Henrique)

Toada de ternura


Meu companheiro menino,
perante o azul do teu dia,
trago sagradas primícias
de um reino que vai se erguer
de claridão e alegria.

É um reino que estava perto,
de repente ficou longe:
não faz mal, vamos andando
porque lá é o nosso lugar.

Vamos remando, Leonardo,
poque é preciso chegar.
Teu remo ferindo a noite,
vai construindo a manhã.
Na proa do teu navio
chegaremos pelo mar.

Talvez cheguemos por terra,
na poeira do caminhão,
um doce rastro varando
as fomes da escuridão.
Não faz mal se vais dormindo,
porque teu sono é canção.

Vamos andando, Leonardo.
Tu vais de estrela na mão,
tu vais levando o pendão.
Tu vais plantando ternuras
na madrugada do chão.

Meu companheiro menino,
neste reino serás homem,
como o teu pai sabe ser.
Mas leva contigo a infância,
como uma rosa de flama
ardendo no coração:
porque é de infância, Leonardo,
que o mundo tem precisão.

(Thiago de Mello)
Enviado pela vovó Irene ao meu filho Caio em abril de 2004.

A Borboleta




Hoje a crisálida se fez borboleta!
Descobriu suas asas e alçou vôo.
Hoje a menina largou a boneca.
Trocou o algodão pela seda,

E se fez mulher!

Na boca rósea um batom rubro.
Nos olhos algumas cores.
Nos pequeninos pés um salto alto,
E no coração alguns amores!

Minha menina pequena...
Pequena mulher.

Recém-chegada neste mundo feminino,
Onde se sofre,
Onde se chora,
Onde se sangra,
E onde se gera a vida.

Seja bem-vinda!
E venha linda,
pois nosso mundo ficou melhor,
com uma guerreira a mais.

(Elís Cândido/escrito para minha filha Clara em junho de 2010)

Filme de quinta



Quisera eu viver num filme
em que as princesas e os dragões fossem verdades.
Um filme com mocinhos de alma pura
e vilões repletos de maldade.

Quisera eu viver de contos.
De amor e poesia,
valentia e bravura,
de gnomos e duendes,
fadas, bruxas e serpentes.

Uma história sem fim,
com trilha sonora envolvente,
figurinos de pura seda
e um diretor convincente.

Pois neste filme em que vivo
e para o qual não há dublê,
os mocinhos são fracos,
os vilões disfarçam-se em cordeiros
e as mocinhas se perderam em vaidades.

E a platéia?!
Acompanha a tudo
discutindo e opinando,
como se não fossem eles
também atores de quinta.
De filmes sem qualidade.

Preferia os dragões.
Soltando fogo pelas narinas.
E os vilões.
Absolutamente covardes.
Que este povo mesquinho,
travestido em bondades.

(Elís Cândido - maio de 2010)