Este Quarto...



Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa esse quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! Imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...

Mario Quintana

Primeiro, não queremos perder


Primeiro, não queremos perder
É lógico não querer perder.
Não deveríamos ter de perder nada:
Nem saúde, nem afetos, nem pessoas amadas.
Mas a realidade é outra:
Experimentamos uma constante alternância de ganhos e perdas.

Segundo:
Perder dói mesmo.
Não há como não sofrer.
É tolice dizer não sofra, não chore.
A dor é importante.
O luto também.

Terceiro:
Precisamos de recursos internos para enfrentar a tragédia e a dor.
A força decisiva terá que vir de nós, de onde foi depositada a nossa bagagem.
Lidar com a perda vai depender do que encontrarmos ali.

A tragédia faz emergir forças inimagináveis em algumas pessoas.
Por mais devorador que seja, o mesmo sofrimento que derruba faz voltar a crescer.

Quando é hora de sofrer não temos de pedir licença para sentir, e esgotar, a dor.
O luto é necessário, ou a dor ficará soterrada, seu fogo queimando nossas últimas reservas de vitalidade e fechando todas as saídas.

Aprendi que a melhor homenagem que posso fazer a quem se foi é viver como ele gostaria que eu vivesse: bem, integralmente, saudavelmente, com alegrias possíveis e projetos até impossíveis.

Lya Luft

QUEM SOU EU?



Nesta altura da vida já não sei mais quem sou...
Vejam só que dilema:

Na ficha da loja sou cliente, no restaurante sou
freguês, quando alugo uma casa inquilino, na
condução passageiro, nos correios remetente,
no supermercado consumidor.
Para a Receita Federal contribuinte, se vendo algo
importado contrabandista.
Se revendo algo, sou muambeiro, se o carnê tá
com o prazo vencido inadimplente, se não pago
impostos sonegador.
Para votar eleitor, mas em comícios massa, em
viagens turista, na rua caminhando pedestre,
se sou atropelado acidentado, no hospital paciente.
Nos jornais viro vitima, se compro um livro leitor,
se ouço rádio ouvinte.
Para o ibope espectador, para apresentador de
televisão telespectador, no campo de futebol
torcedor.
Se sou corintiano, sofredor, se sou palmeirense,
sou porco, se sou santista, sou peixe, se sou
são paulino, sou pó de arroz...
Agora já virei galera.
Se trabalho na Anatel, sou colaborador e, quando
morrer... uns dirão... finado, outros... defunto, para
outros... extinto, para o povão... presunto...
Em certos círculos espiritualistas serei... desencarnado,
evangélicos dirão que fui... arrebatado...
E o pior de tudo é que para todo governante sou apenas
um imbecíl!!!
E pensar que um dia já fui mais EU.


(Luiz Fernando Veríssimo)
Retirado do Blog Pelos Caminhos da Vida

Perdoa-me



Perdoa-me pois eu pequei
por atos e palavras,
pensamentos e omissões...
Por minha culpa,
minha máxima culpa.

Tantas vezes não soube amar ao meu próximo.
Aceitar as diferenças.
Respeitar as limitações alheias.
Olhar com os Teus olhos.

Perdoa-me por querer sempre mais.
Por almejar o que não tenho.
Sem dar valor ao que me cerca.
Sem agradecer pelo que possuo.

Perdoa-me pelas vezes que fechei meus olhos.
Não notando as maravilhas desta vida.
Ignorando a Tua obra.
Olhando sempre para dentro de mim.

Perdoa-me por me afastar de Ti.
E depois reclamar por estar só.
Foi minha culpa.
Somente minha...

Perdoa-me!
Volta Teus olhos para mim.
Escuta o meu coração.
E me conduz neste caminho.

Me ajuda a me encontrar.
Afastar a escuridão.
Encontrar de novo a paz.
Perdão, Jesus, perdão!

(Elís Cândido/maio de 2010)

Canção Mínima


No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta

Cecília Meireles