Canção Mínima


No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta

Cecília Meireles

A ausente


Os que se vão, vão depressa.
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem, vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.

Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.

No entanto, hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer.
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.

Os que se vão, vão depressa.
Mais depressa que os pássaros que passam no céu.
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.

Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão.

Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa, ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão...

Augusto Frederico Schmidt

Canto Das Três Raças


Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador

Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor

13 de Maio


O dia de hoje não deve ser um dia comum. Deve ser um dia para reflexão e oração. Um dia especial. Foi em 13 de maio de 1888 que a princesa Izabel assinou a Lei Áurea, abolindo a escravidão em nosso país. Foi também nesta data que Nossa Senhora fez sua primeira aparição aos pastorinhos, na cidade de Fátima. Não estamos, pois, em um dia especial?!
É doloroso perceber que após 122 anos da Abolição, nosso povo não é livre. Após tantos anos, ainda estamos presos às mesmas correntes que nos prendiam naqueles tempos. Correntes da ignorância, do preconceito, da falta de compreensão, de irmandade. Precisamos nos libertar destas correntes e nos enxergar como realmente somos: somos todos frutos da miscigenação, da fusão das raças, da junção das cores. Não somos absolutamente brancos ou absolutamente negros. Somos uma mistura!
Correm em nosso sangue as raízes do povo africano lutador e guerreiro trazido para o nosso país. Corre o sangue dos índios, verdadeiros donos desta terra, humilhados e escondidos nos confins das últimas reservas. Corre o sangue do império e da burguesia. O sangue brasileiro é colorido! Não podemos negar as nossas origens.
É preciso fazer com que tanta luta e sofrimento tenha valido à pena. Que não tenha sido em vão. É preciso abolir a escravidão das nossas almas, nos tornarmos livres, iguais, irmãos.
Nossa Senhora, em sua aparição em Fátima pediu-nos para rezar. É preciso rezar. É preciso acreditar. É preciso não perder a fé e a esperança! É preciso enxergar os mais humildes como nossos iguais. É preciso partilhar sentimentos. Nossa Senhora não apareceu para crianças pobres por acaso. Seus corações puros eram um campo fértil onde ela pôde semear as suas palavras.
E os nossos corações? Se ressecaram? Transformaram-se em um deserto de onde nada mais se colhe?
Neste dia especial, vamos refletir, repensar nossas atitudes, rever nossos conceitos e tentar contribuir para a construção de um mundo melhor.

A importância das Palavras


Ontem assisti a um filme que realmente valeu à pena: "P.S. Y love You". O filme tem uma história bonita, uma boa fotografia e bons atores. Confesso que chorei... Os filmes, às vezes me fazem isto... Além da história que envolve a trama principal, o filme destaca um tema que muito me agrada: a importância das palavras. Depois da morte de Gerry, vitimado por um tumor cerebral,sua esposa continua recebendo cartas escritas por ele em sua fase terminal. As cartas são repletas de palavras de conforto, orientações e lembranças que fazem com que Holly, a viúva, consiga suportar a difícil perda do marido. Todas as cartas terminam com a seguinte declaração: P.S. te amo!
Ao longo da história, as lembranças dos momentos vividos, as imagens, cheiros e sabores vão se perdendo,restando somente as palavras escritas naquelas cartas. E é mesmo assim. As palavras são mágicas. Uma vez ditas, criam vida, tornam-se música para os nossos ouvidos, poemas de amor recitados, acusações, defesas...
O mundo se transformou após o advento da escrita, passamos a registrar os nossos hábitos e tradições, a construir o nosso acervo cultural, a dar forma e vida às nossas idéias e pensamentos. Tudo em função das palavras.
Então por que é tão difícil usá-las? Por que é tão difícil falar? Por que nos calamos? Por que passamos a vida com vontade de dizer coisas que nunca dizemos? Não é contraditório? Temos tanto medo, tanta dificuldade de fazer uso daquilo que mais nos difere dos outros animais que é a nossa racionalidade, a nossa inteligência, a nossa capacidade de expressar idéias e pensamentos... As palavras só existem se forem ditas. Então diga! Diga o que você pensa, o que você sente, o que você busca! Diga que você ama, que você sofre, que sente medo...
Não espere que o filme da sua vida chegue ao final para você lamentar por tudo o que gostaria de ter dito e não o fez. Use este dom que Deus lhe deu e comunique-se! Tenho certeza de que há alguem esperando te ouvir.